O catador de latinhas
Em “Dom Casmurro”, romance de Machado de Assis, Bentinho narra que conheceu um poeta apenas “de vista e de chapéu”: um homem que costumava pegar o mesmo trem que ele. Nunca chegaram a conversar, porém havia certa familiaridade muda entre ambos, que nasce do simples costume de se cruzar repetidamente. Certa vez, o jovem poeta quis ler-lhe alguns versos, mas Bentinho acabou cochilando durante a leitura. O jovem bardo ficou griladíssimo com a desatenção e passou a chamá-lo de Dom Casmurro, apelido que ironizava seu jeito silencioso, fechado. Mas os adjetivos, conforme encontramos na leitura da obra, vão além disso. Bentinho era ciumento, inseguro, ressentido, nostálgico. É um romance que a gente tem de ler com o pé atrás para não embarcar facilmente nos relatos capciosos do personagem, que confessa ter uma lacuna existencial desconfortável: que é faltar a si mesmo.
Eu conheço um homem de outra maneira. Eu o vejo todos os dias pela manhã quando estou indo para o trabalho, exceto nos finais de semana, que é o meu tempo destinado à passarinhação. Eu o conheço por seu boné vermelho e por um saco plástico que sempre carrega nas costas, dentro do qual vão as latinhas de alumínio que recolhe pelas ruas para vender. É um tipo de trabalho bastante comum nas grandes cidades brasileiras, onde muitas pessoas sobrevivem da coleta de materiais recicláveis. Costumo vê-lo nas imediações do Parque Mutirama. Nas vezes anteriores em que o encontrei, eu estava de carro, olhando-o de passagem, como quem vê uma cena breve pela janela do carro. Com o tempo, passei a reconhecê-lo com facilidade: o boné vermelho e o saco cheio de latinhas tornaram-se marcas fáceis de identificá-lo.
Nesta semana foi diferente. Indo tomar café numa lanchonete perto do meu trabalho, acabei me encontrando com ele. Estávamos na mesma calçada, sob o mesmo pedaço ensolarado da manhã. A cidade, como sempre, acordava com aquele barulho típico de cidade grande: roncos de motores, buzinas, passos apressados de pessoas rumo ao trabalho. Algumas pessoas caminhavam com pressa para pegar ônibus; outros abrindo lojas.
Conforme caminhava, as latinhas dentro do saco produziam um tilintar metálico. Seus passos eram tranquilos, sem pressa. Sou seu admirador. Observei que ele parecia concentrado no caminho, atento ao que podia encontrar pelo chão. Em alguns momentos, diminuía o ritmo, como se estivesse procurando mais alguma lata jogada na calçada.
Pode soar estranho admirar um homem que recolhe latas pelas ruas, mas há uma dignidade silenciosa nesse ofício. Enquanto muita gente circula pela cidade com pressa e muitas vezes com os olhos grudados no celular, ele percorre as ruas com um olhar atento ao chão, garimpando latinhas. Onde muitos veem lixo, ele enxerga sustento. O seu trabalho, além de garantir algum dinheiro, também ajuda a reduzir a quantidade de resíduos jogados nas ruas.
E cada latinha recolhida parece carregar mais do que alumínio: carrega a sua maneira de batalhar pelo seu pedaço de pão. Não é uma vida fácil como a vida fácil e nababesca de inúmeros homens públicos, muitos como carrapatos grudados nas tetas dos cofres públicos dentro da rotina comum do mundo abominável da sinecura. A cidade, como bem sabemos, altaneiro leitor, não costuma ser generosa com aqueles que vivem em suas zonas mais invisíveis. Ela pisa na cabeça deles e os esmaga como se estivesse esmagando uma barata.
Enquanto eu caminhava atrás dele, pensei que certas dignidades não fazem discurso espalhafatoso, não aparecem em palanque, não pedem aplauso. Não se dizem mitos (imbrochável, imorrível, incomível), não se dizem influencers. Elas apenas seguem andando pelas calçadas, muitas vezes com um saco de latas nas costas e uma coragem admirável no peito. E passam por nós quase todos os dias, muitas vezes sem que as percebamos. Afinal, a nossa pressa é tamanha e, portanto, sem tempo para que reparemos nessas pequenas histórias humanas caminhando pelas ruas.
Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza
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