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Do saber antigo à biotecnologia: o avanço do melhoramento genético do gado no Brasil

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Existe, no senso comum, a ideia de que a vivência rural e o desenvolvimento tecnológico vivem separados, como se fossem representações opostas do passado e do futuro, uma conexão impossível. Entretanto, há pontos de encontro entre essas duas realidades, afinal, o tempo presente se constitui justamente desse encontro.

O Brasil, e também Goiás, é um dos lugares onde esse contato entre tradição e inovação se manifesta com clareza. Um exemplo disso é o melhoramento genético do gado praticado no país. Trata-se de uma prática tão antiga, ou até mais, quanto os relatos bíblicos de Jacó, que observava o rebanho de seu sogro, Labão, e percebia que algo diferente acontecia no momento do acasalamento. Ao mesmo tempo, é um campo tão moderno quanto os debates atuais sobre sustentabilidade e a convivência entre humanos e outras espécies no planeta.

Esse conhecimento, de raízes milenares, é hoje dominado pelos brasileiros, possivelmente com um grau de desenvolvimento superior ao de muitos outros países. Uma evidência disso é o trabalho realizado pela Embrapa ao longo de décadas.

Para entender melhor as condições atuais e as perspectivas para o futuro do melhoramento genético, o Jornal Opção conversou com Antônio do Nascimento, pesquisador do grupo de Pesquisa em Sistemas de Produção da Embrapa Gado de Corte (CNPGC), que atua na instituição há quase 50 anos.

Foto: Divulgação

História do melhoramento genético no Brasil

Antônio explica que o melhoramento genético, a princípio, começou a partir do fenótipo — ou seja, das características visíveis dos animais. Buscava-se o mais forte e o mais vigoroso, já que, no caso do gado, o objetivo inicial era mais voltado ao trabalho do que à alimentação. Foi na Inglaterra medieval que os fazendeiros passaram a medir os filhotes e, posteriormente, começaram a registrar a genealogia do gado, documentando a história familiar desses animais.

No Brasil, o processo começou com o gado taurino no Rio Grande do Sul, seguido pelo Caracu em São Paulo e pelo Zebu em Minas Gerais. Antônio explica um trecho dessa história:

“Então, o registro genealógico é do século passado, entre 1906 e 1918, por aí. O controle da genealogia foi a primeira etapa. Depois, na década de 1950, começamos a medir o desempenho dos animais nas chamadas provas de ganho de peso. Colocávamos todos os animais em um mesmo local, com o mesmo tratamento, medíamos o ganho de peso e elegíamos aqueles que apresentavam os melhores resultados. Depois evoluímos para o controle de desenvolvimento ponderal. E assim por diante, começamos a coletar dados.”

O pesquisador também destaca que existem mais de 500 raças bovinas mapeadas no mundo, mas uma delas representa a maior parte da criação brasileira: o Zebu. Antônio explica que o sucesso dessa raça no país está ligado à sua origem indiana e à adaptação ao clima tropical. Segundo ele, séculos atrás o Zebu chegou a ser utilizado em zoológicos da Europa, mas foi com a vinda da família real portuguesa e o processo de colonização que os europeus perceberam que fazia mais sentido trazer para o Brasil animais adaptados a climas quentes.

Foto: Divulgação/Embrapa

A partir daí, começou uma transformação na criação brasileira e, hoje, a raça nelore representa praticamente 90% do efetivo comercial do rebanho bovino no Brasil.

O pesquisador da Embrapa detalha que “não existe a melhor raça do mundo, existe a raça mais bem adaptada. Em uma condição tropical e em um sistema de criação como o do Brasil, é difícil bater o nelore. É uma vaca de tamanho médio, com boa habilidade materna, boa fertilidade, boa adaptabilidade ao clima quente e grande rusticidade. O bezerro nasce, já levanta, mama e exige pouca mão de obra para cuidados. Daí vem o sucesso da raça nelore.”

Como funciona o melhoramento genético?

Antônio explica que existem vários fatores relacionados ao melhoramento genético do gado: genéticos, fenotípicos e ambientais. Há aqueles que podem ser manipulados e controlados, e outros que escapam da capacidade humana, como a radiação solar e o regime de chuvas.

Por isso, é necessário garantir boa alimentação, saúde, manejo adequado e pastagem de qualidade para que o animal alcance melhor peso e estrutura. Além disso, também é preciso identificar os melhores animais e selecioná-los para a reprodução, etapa que marca o início do processo de melhoramento genético.

Além dessa perspectiva, o Jornal Opção também ouviu Rogério Nunes, diretor comercial da empresa Cria Fértil. Ele explica que outra alternativa é a inseminação artificial, em que o produtor seleciona as características que deseja reproduzir, compra o sêmen do animal e realiza o procedimento para obter essas qualidades no rebanho.

Outro fator de avanço tecnológico ressaltado por Antônio é a ultrassonografia. “Com o passar do tempo, a ultrassonografia, que foi criada e praticada na saúde humana, passou a ser adaptada também para trabalhos na área de zootecnia e de melhoramento genético. Com o uso da ultrassonografia, é possível medir a espessura de gordura subcutânea, aferir o marmoreio — que são aqueles pontos de gordura que entremeiam o músculo e dão suculência à carne — e avaliar a área de olho de lombo, que indica a musculosidade do animal. Assim, não é necessário abater o animal para fazer essa análise. A avaliação pode ser feita com o animal vivo, e esses dados passam a ser considerados no processo de seleção.”

Além disso, há o monitoramento diário dos animais e a coleta de dados. Como exemplo, o pesquisador cita que existem cochos de alimentação equipados com balanças, o que permite acompanhar, com precisão, o consumo de alimento de cada indivíduo do rebanho.

Atualmente, a Embrapa também trabalha no desenvolvimento de tecnologias para avaliar o consumo de água pelos animais, ampliando o controle e a eficiência no manejo do rebanho.

Melhoramento genético em Goiás

O avanço do melhoramento genético também contribui para aumentar o valor do produto final. Como exemplo, ele cita o crescimento da procura pela raça angus, conhecida por produzir uma carne de maior qualidade.

Segundo ele, o estado registrou crescimento de 15% no mercado de venda de sêmen para gado de corte e de 24% para gado de leite, o que representa 17% de crescimento total no setor. Apenas a empresa Cria Fértil comercializa mais de 500 mil doses de sêmen por ano.

Quais as expectativas para o futuro do melhoramento genético?

Sobre as perspectivas para os próximos anos, Antônio afirma que “Inclusive, quando você fala em expectativas de futuro, na verdade, nós já estamos no futuro. Essas medidas todas, de coleta de dados sobre o gado, são feitas remotamente, de forma eletrônica. Você não precisa colocar a mão em nada, todos os dados são obtidos de maneira remota. Isso representa um nível realmente elevado de tecnologia.”

Em seguida, o pesquisador explica que o mapeamento genético já chegou ao nível cromossômico, permitindo identificar o grau de parentesco entre os indivíduos a partir da transcrição completa do genoma. Com isso, a expectativa é de avanços cada vez mais amplos e integrados, em uma abordagem holística, na qual o melhoramento genético deve impulsionar a qualidade da carne, a produtividade, a segurança alimentar e a sustentabilidade da produção pecuária.

Por fim, Rogério afirma que ainda existe um desafio a ser superado no setor: a resistência de parte dos produtores em adotar as tecnologias mais recentes disponíveis para o melhoramento genético.ca as últimas atualizações tecnológica dos setor.

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