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A guerra e os limites da justiça: o alerta de Carlos Henrique Cardim inspirado em Norberto Bobbio

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*Colaboração de Júnior Kamenach

Em tempos de tensões geopolíticas e conflitos internacionais cada vez mais complexos, o debate sobre a legitimidade da guerra volta ao centro da reflexão política. Para o professor e diplomata Carlos Henrique Cardim, especialista na obra do filósofo italiano Norberto Bobbio, esse é um dos temas mais delicados do pensamento político contemporâneo. Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, Cardim destacou que a ideia de “guerra justa” precisa ser tratada com extremo cuidado, pois pode facilmente se transformar em justificativa para a escalada da violência.

Segundo ele, embora o conceito exista na tradição filosófica e religiosa, a apropriação política desse argumento pode ser perigosa. “Qualquer conflito pode ser apropriado pelo conceito de guerra justa”, afirmou, alertando que, ao legitimar a violência como solução, corre-se o risco de criar um ciclo de conflitos sucessivos. Para Cardim, a história do século XX demonstra que a violência política raramente resolve problemas estruturais e frequentemente aprofunda crises.

A reflexão dialoga diretamente com o pensamento de Norberto Bobbio, filósofo que dedicou grande parte de sua obra à análise da democracia, da paz e dos limites do poder. Na interpretação de Cardim, Bobbio sempre tratou temas como guerra e violência com prudência intelectual, evitando respostas simplistas para questões complexas.

A preocupação com a violência política também aparece quando o diplomata comenta o avanço de movimentos extremistas no mundo contemporâneo. Cardim relembrou o atentado terrorista ocorrido na Noruega, que revelou a presença de células neonazistas mesmo em sociedades consideradas estáveis e desenvolvidas. Para ele, o episódio evidencia que radicalizações ideológicas podem surgir mesmo em contextos de prosperidade econômica.

Esse fenômeno, segundo o professor, mostra que a política precisa ser analisada com profundidade sociológica e histórica. Conflitos culturais, tensões identitárias e transformações sociais podem gerar ressentimentos capazes de alimentar movimentos autoritários.

Nesse sentido, Cardim resgata um princípio central do pensamento de Bobbio: compreender a política exige analisar seus opostos. Para entender a democracia, por exemplo, é necessário estudar as ditaduras; para compreender a liberdade, é preciso conhecer as formas de opressão. Esse método comparativo permite evitar simplificações e ampliar a capacidade crítica do debate político.

A política, lembra o professor, é uma atividade profundamente séria porque suas decisões produzem consequências reais na vida das sociedades. Por isso, Bobbio defendia a necessidade de educação política e de responsabilidade no exercício do poder. Ideais e convicções, embora importantes, precisam ser acompanhados de prudência e consciência das consequências das ações.

Durante a entrevista, Cardim também utilizou metáforas clássicas associadas ao pensamento filosófico para explicar diferentes visões sobre liberdade e sociedade. Uma delas compara o indivíduo a uma mosca presa dentro de uma garrafa: o papel do conhecimento seria mostrar a saída possível. Outra metáfora fala do peixe preso em uma rede, capaz de se mover, mas ainda limitado pelas estruturas que o aprisionam.

A imagem mais significativa, no entanto, é a do labirinto. Para Cardim, essa metáfora sintetiza a visão bobbiana da democracia. Assim como em um labirinto, as sociedades democráticas avançam por tentativa e erro, descobrindo caminhos que não funcionam até encontrar alternativas melhores. Trata-se de um processo imperfeito, lento e frequentemente frustrante, mas que permite corrigir rotas sem recorrer à violência revolucionária.

Essa perspectiva também explica a crítica de Bobbio ao jacobinismo — corrente política associada a soluções radicais e transformações abruptas. Em vez de rupturas violentas, o filósofo defendia a construção gradual das instituições democráticas e o fortalecimento do debate público.

A experiência histórica europeia reforça essa posição. Para Cardim, quem testemunhou regimes autoritários como o fascismo ou o nazismo compreende com maior clareza o valor da liberdade política. O século XX demonstrou de forma dramática os custos humanos da supressão das liberdades e da instrumentalização da violência pelo poder.

Diante desse legado histórico, a lição central que emerge do pensamento de Bobbio — e que Cardim procura destacar — é a defesa de uma democracia consciente de suas dificuldades. Longe de ser um sistema perfeito, ela é um processo contínuo de aprendizado político, baseado na crítica, na pluralidade de ideias e na recusa da violência como solução imediata.

Em um cenário internacional marcado por disputas militares, tensões ideológicas e novas formas de radicalização, a advertência permanece atual: transformar guerras em causas moralmente justificáveis pode ser o primeiro passo para tornar a violência politicamente aceitável. E, como a história mostra, esse caminho raramente conduz à paz.

Leia também: Doutor pela USP faz palestra sobre o filósofo Norberto Bobbio no IHGG, em Goiânia

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