Goiás em um conto de Machado de Assis
Marietta Telles Machado
Sempre se pode garimpar coisas em nosso velho grande Machado de Assis. Sua obra, estudada através de gerações, dissecada por críticos, por estudiosos, por escritores, pelos amantes de sua arte, conta hoje com uma das mais vastas bibliografias que se possa escrever sobre um homem de letras num país. Mas eu diria do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, que se disse de Jorge Luis Borges: ler Machado de Assis é sempre uma fina aventura intelectual.
Relendo alguns contos do volume “Histórias da meia-noite”, velha edição de Jackson, de 1938, deparei-me com a quase novela “A parasita azul”, publicada originalmente em 1872, no Jornal das Famílias. O conto abrange 82 páginas e está dividido nas seguintes partes:
I – Volta ao Brasil;
II – Para Goiás;
III – O encontro;
IV – A festa;
V – Paixão;
VI – Revelação;
VII – Precipitam-se os acontecimentos.
É a história de Camilo Seabra, goiano de Santa Luzia. O pai, rico proprietário, declara-o por afilhado a um amigo, naturalista francês, sob orientação e assistência do padrinho, o moço vai para Paris estudar Medicina. Formado, depois de ter percorrido todas as escolas dos prazeres sensuais e frívolos com um sofreguidão que parecia antes suicídio, volta o moço, sai do cérebro da França, muito a contragosto, sob ameaças do pai de cortar-lhe a mesada, para vir internar-se em Goiás.
Do Rio, toma o vapor para Santos e daí vem a cavalo para sua terra, que nem viveu oito anos em Paris! Nos pousos tristes das estradas de tropeiros ainda mais pungiam ao herói as saudades de Paris.
“Um tropeiro sacou da viola e começou a gargantear uma cantiga que a qualquer outro encantaria pela rude singeleza dos versos e da toada, mas ao filho do comendador apenas faz lembrar com tristeza as voltas da ópera. A gora a ópera e outra; os gritos e também as risadas do pouso, formavam o coro do deserto.”
E depois, já na fazenda do pai, morto de saudades, Camilo pensa: ficar aqui mais treze meses não posso, Paris ou o cemitério.
Mas as coisas não continuam assim por muito tempo. No sertão de Goiás, o doutor vira encontrar uma formosa conterrânea, uma flor do sertão que abala seu coração nas mais fundas raízes e o faria, sem muitos temores, esquecer Paris, suas mulheres, seus bailes e as óperas, objeto da paixão de Isabel, morena, de um moreno acetinado e macio, com delicadíssimos longes de cor de rosa; os olhos de infinita luz, a elegância nativa do busto, o desembaraço dos gestos e espontaneidade dos movimentos, – um conto “auge com açúcar”, de happy end sem as profundezas psicológicas do autor, mas escrito com característica elegância do grande mestre.
Entremeando o casto amor de Camilo e Isabel, Machado vai contar coisas interessantes. E de interesse na história está justamente na descrição da festa do Divino Espírito Santo em Santa Luzia.
“Não raro eram, escreve Machado de Assis, os lugares em que todo se não apagou o gosto dessas festas clássicas, resto de outras eras, que os escritores do século futuro hão de estudar com curiosidade, para pintar aos seus contemporâneos um Brasil que eles não hão de conhecer.”
No tempo em que esta história se passa, uma das mais genuínas festas do Espírito Santo era na cidade de Santa Luzia. Então, fala o autor da honra e da alegria do tenente-coronel Veiga, um dos personagens de seu conto, em ser o festeiro, o Imperador do Divino.
É ponto duvidoso e provavelmente nunca será liquidado, se o tenente-coronel Veiga preferiria aquela ocasião ao ser ministro de Estado ou Imperador do Espírito Santo. A festa começa com uma serenata de pastores na casa do Imperador. Depois ouve-se o sino a repicar alegremente, os fogos a espoucarem e mais demonstrações de alegria. Cada imperador se esforça para que sua festa suplantasse em brilho e pompa a do precedente.
Ao clarear do dia, um cortejo composto de uma banda de música, da irmandade do Espírito Santo e dos pastores vai à casa do Imperador para conduzi-lo à missa festiva. Ele surge à porta vestido de calça preta e casaca, trazendo no peito uma cruz e vasta comenda da Ordem da Rosa e à cabeça uma brilhante e vistosa coroa de papelão forrada de papel dourado.
A aparição do imperador com a coroa – despedida falaciosa quase inverossímil – a banda prorrompe em música e ao aproximar o cortejo da igreja, os sinos começam a repicar.
Um mestre de cerimônias vai receber o imperador e o povo, curioso para pôr os olhos em tão rara figura, a custo vai abrindo alas para a passagem do imperador, que está sendo levado ao seu trono ao lado do altar-mor.
Mais tarde, no jantar que reúne a mesa do tenente-coronel e as notabilidades do lugar, vêm os brindes, os comentários sobre a festa entremeados de reflexões políticas.
Pena que o autor não tenha falado sobre o baile e outros pormenores, que seriam rica fonte para o estudo de uma época.
Raras cidades em Goiás (talvez apenas Pirinópolis e algumas outras poucas) conservam essas festas com a beleza e o esplendor originais.
Lembro-me a propósito do desaparecimento de costumes tradicionais que encerram tanta beleza e tanto colorido, do que escreveu Pier Paolo Pasolini, ao escolher Nápoles para cenário de um de seus filmes:
“Nápoles constitui o último bastião da expressão popular, não tendo sido ainda envolvida pela sociedade de consumo que, apesar de trazer bem-estar, nivela todo mundo, destruindo todos os caracteres que permitem distinguir um povo do outro.”
E isso é verdade. Com o progresso vamos nos desfigurando, estandardizando-nos, perdendo o que há de mais característico em nós, perdendo os traços que nos distinguem dos outros. Pouca coisa ou quase nada se salva.
Bem, todas essas reflexões vieram a propósito de um conto de Machado de Assis, que eu por acaso tornei a ler.
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