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Forma como Tatiana Sampaio conduz sua pesquisa sobre polilaminina transforma a medicina experimental em aposta de risco

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Roberson Guimarães

Médico

O caso polilaminina e a exposição midiática da dra. Tatiana Sampaio configuram uma excelente oportunidade para aplicar conceitos da Filosofia da Ciência ao debate público. Por quê? Os fatos são paradigmáticos do conflito entre esperança, urgência e o rigor do método científico.

O problema central, visto pelos olhos de Karl Popper, é a completa ausência de qualquer tentativa séria de falsear a hipótese de que a polilaminina é eficaz. Resultados anedóticos, como os da dra. Tatiana, são, na melhor das hipóteses, o ponto de partida para uma conjectura. O que falta? A etapa crucial da refutação.

Quando um paciente relata melhora, isso não “verifica” a teoria. O que importa é submeter a substância a testes rigorosos, controlados e duplo-cegos, onde se busca ativamente o erro. A pergunta correta não é “a polilaminina funciona?”, mas sim “o que é necessário para provar que a polilaminina não funciona?”. Sem essa tentativa deliberada de falseamento, não estamos fazendo ciência, estamos apenas coletando anedotas que confirmam um viés.

O “furor” (aproveito para utilizar o mesmo termo que doutora Tatiana Sampaio empregou na entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura) entre leigos é compreensível, mas perigoso exatamente por isso: a esperança cancela a dúvida, que é o motor do progresso científico. O senso comum é um obstáculo epistemológico que precisa ser rompido para se chegar ao conhecimento científico.

A ideia de “um remédio que cura paralisia” é uma imagem poderosa, simples e desejável. É uma verdade primeira que agrada ao coração. O trabalho da ciência é justamente construir um conhecimento contra essa primeira impressão, por meio de um racionalismo aplicado, exigindo que essa esperança seja posta à prova, que seja criticada, medida e inserida em um contexto de provas meticulosas.

“Sem estudo clínico eu não acredito em nada. Sem grupo-controle, sem análise estatística com grandes grupos, sem injetar salina em um grupo e o tal do outro negócio no outro e ver no que dá… Eu estudo isso há 50 anos. Lesão medular aguda tem uma taxa altíssima de recuperação espontânea, sem você fazer nada. Então você não pode dizer absolutamente nada sobre um tratamento sem realizar um estudo clínico completo. Eu não abro minha boca até ver os dados publicados de um estudo dessa maneira.” — Miguel Nicolelis, neurocientista

Não estou dizendo que devemos ficar presos ao dogmatismo purista. Descobertas que mudam paradigmas são sempre revolucionárias.

Mesmo Feyerabend, com seu anarquismo epistemológico, e que poderia ser erroneamente convocado para defender o uso compassivo e irrestrito da Polilaminina — afinal, para ele, “tudo vale” —, pode nos ajudar a discutir a necessidade de algum controle do método.

Feyerabend criticava a imposição de um método rígido e universal da verdade científica, mas não a defesa do conhecimento testado. O “vale-tudo” de Feyerabend é um princípio heurístico para o progresso do conhecimento, não uma licença para aplicar tratamentos não testados em seres humanos. A pesquisa sem método, baseada apenas na esperança e na exposição midiática, cria um dogma pior: o dogma da cura milagrosa (a molécula de Deus no formato do crucifixo).

A ciência deve ser uma entre muitas formas de conhecimento, mas a decisão de usar um tratamento deve ser informada pela melhor evidência disponível, e não pela crença ou pressão popular. O pluralismo metodológico não significa ausência de escrutínio.

O método científico não é um mero protocolo burocrático. A pressa pelo “uso compassivo” (termo utilizado insistentemente pela dra. Tatiana Sampaio), a espetacularização midiática e a judicialização da administração do medicamento fora de protocolos de pesquisa — infelizmente estimulada pelos pesquisadores envolvidos — sem as necessárias evidências, subvertem todo o edifício filosófico e científico construído ao longo de séculos. A forma como a doutora Tatiana está conduzindo sua (louvável) pesquisa transforma a medicina experimental em uma aposta de alto risco.

Roberson Guimarães, médico, é colaborador do Jornal Opção.

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