Carnaval para poucos, trabalho para muitos
O carnaval de Salvador, Bahia, sempre foi vendido ao mundo como a maior festa popular do planeta, uma explosão de alegria coletiva, um território de encontros, de misturas, de corpos livres em movimento. Mas essa narrativa, repetida à exaustão por campanhas publicitárias, discursos oficiais e transmissões televisivas, começa a ruir quando observamos a festa não do alto dos camarotes climatizados ou das varandas “gourmetizadas”, mas do chão quente do asfalto, onde o suor escorre, a fome aperta e o cansaço se acumula. A partir dessa perspectiva territorial, o carnaval deixa de ser apenas celebração e passa a ser também um dispositivo de produção de desigualdades, um grande laboratório urbano onde se explicitam as contradições sociais, raciais e econômicas da cidade. A festa, que nasceu da rua, do batuque, da invenção popular, foi progressivamente capturada por uma lógica empresarial que reorganizou o espaço urbano segundo interesses privados. O que antes era fluxo livre tornou-se corredor controlado. O que antes era praça, virou área cercada. O que antes era povo, virou consumidor segmentado. O carnaval contemporâneo é, sobretudo, um evento geograficamente planejado para separar, hierarquizar e explorar, e essa separação é simbólica, material, visível, mensurável em grades, credenciais, pulseiras, catracas e preços. No centro da engrenagem estão os trabalhadores informais, especialmente os ambulantes, figuras históricas da economia urbana de Salvador e do próprio carnaval. São eles que garantem a circulação de alimentos, bebidas e pequenos serviços que sustentam a festa em funcionamento contínuo. No entanto, paradoxalmente, são também os mais invisibilizados, precarizados e submetidos a condições que beiram a escravidão. Trabalham jornadas exaustivas, muitas vezes sem acesso a água potável, descanso adequado ou sanitários, carregando peso excessivo, expostos ao sol, à chuva e à violência, tudo isso em nome de uma festa que gera bilhões em receita, mas distribui migalhas a quem a mantém viva. A geografia do carnaval de Salvador revela um verdadeiro apartheid socioespacial. De um lado, os territórios da abundância com camarotes luxuosos, áreas exclusivas e parte dos circuitos privatizados, onde a experiência é mediada pelo conforto, segurança privada e sensação de pertencimento a uma elite festiva. De outro, os territórios da escassez com ruas congestionadas, becos improvisados e áreas de trabalho informal, onde o risco é constante e o direito quase inexistente. Essa divisão espacial reproduz, em escala concentrada, a própria lógica urbana da cidade, marcada por profundas desigualdades raciais e de classe. Não é por acaso que os blocos afro, como o Ilê Aiyê, carregam um peso simbólico tão grande no contexto do carnaval de Salvador. Eles são a memória viva de uma resistência que sempre entendeu o espaço como campo de disputa. O surgimento desses blocos foi um ato cultural e gesto político-territorial, ocupando a rua com identidade negra, afirmando o direito à cidade e rompendo com a invisibilidade imposta por um urbanismo racista na capital brasileira onde, proporcionalmente, reside a maior população negra do Brasil, sendo considerada a cidade com mais negros fora da África, onde mais de 80% dos moradores se declaram negros. No entanto, até mesmo essas expressões de resistência são hoje tensionadas por um modelo de festa que tenta enquadrar tudo em lógica de mercado, transformando símbolos de luta em produtos turísticos. O discurso oficial insiste em apresentar o carnaval como motor econômico, vitrine internacional e oportunidade de negócios. Mas raramente se pergunta: oportunidade para quem? Quem são os sujeitos que de fato acumulam riqueza nesse período? Quem controla os contratos, os patrocínios, as concessões de espaço? A resposta, quando investigada com seriedade, revela uma concentração brutal de ganhos em poucos grupos empresariais, enquanto a maioria dos trabalhadores permanece na informalidade, sem proteção social, garantias mínimas e voz nas decisões que afetam diretamente suas vidas. A lógica se agrava quando o poder público assume o papel de facilitador da privatização do espaço urbano. Em vez de atuar como garantidor de direitos, passa a operar como gestor de interesses privados, reorganizando a cidade para maximizar lucros alheios. Obras públicas são realizadas para atender a empreendimentos específicos, áreas estratégicas são concedidas e a fiscalização se volta muito mais para controlar o trabalhador pobre do que para regular os grandes agentes econômicos. O resultado é uma cidade temporariamente redesenhada para excluir, onde o direito de trabalhar é condicionado à submissão a regras impostas por empresas patrocinadoras, sem qualquer vínculo trabalhista formal. A denúncia de condições análogas à escravidão, feita em anos recentes por órgãos de fiscalização, deveria ter sido um ponto de inflexão e provocado uma revisão profunda do modelo de carnaval, com reestruturação das relações de trabalho e uma política séria de proteção aos trabalhadores informais. No entanto, o que se observa é a naturalização do absurdo. A cada ano, repete-se o ciclo com promessas vazias, ajustes cosméticos e, na prática, a manutenção de um sistema que lucra com a precariedade. Do ponto de vista geográfico, isso revela uma gestão seletiva da cidade. O território não é neutro, ele é produzido socialmente e reflete correlações de poder. Quando determinadas áreas são valorizadas, cercadas e vigiadas, enquanto outras são abandonadas ou usadas apenas como zonas de trabalho extenuante, estamos diante de uma política territorial excludente. O carnaval, nesse sentido, funciona como se fosse uma “lente de aumento” das injustiças urbanas. Em poucos dias, condensa-se aquilo que ocorre ao longo de todo o ano nas periferias, nos bairros populares e nos espaços negros da cidade. Há também uma dimensão racial incontornável. Salvador, como já explicitei a priori, é uma cidade majoritariamente negra, mas o controle da festa, renda e espaço permanece majoritariamente branco e elitizado. Os corpos negros aparecem em abundância nos circuitos, mas quase sempre como força de trabalho, figurantes da alegria alheia e mão de obra descartável. A celebração da cultura negra expressa no Cortejo Afro, Malê Debalê, dentre outros, quando esvaziada de seu conteúdo político, torna-se apenas um espetáculo consumível, desconectado das condições reais de vida da população que a produz. O mito da democracia racial, tantas vezes denunciado, reaparece travestido de festa inclusiva em Salvador. Diz-se que o carnaval é de todos, que a rua é democrática e que a música une, mas a experiência concreta desmente essa narrativa. Não há igualdade quando uns podem descansar em poltronas acolchoadas enquanto outros dormem no chão. Não há democracia quando uns escolhem o que consumir e outros são obrigados a vender apenas o que lhes é imposto. Não há inclusão quando o acesso ao espaço depende do poder de compra. É preciso romper com a ideia de que as contradições soteropolitanas são inevitáveis ou naturais. Elas são fruto de escolhas políticas, de um modelo de cidade que prioriza o negócio em detrimento da vida, que transforma cultura em mercadoria, trabalhadores em peças substituíveis e o espaço público em ativo financeiro. Questionar esse modelo não é ser contra o carnaval, é, ao contrário, lutar para que ele recupere seu sentido popular, sua função social e potência transformadora. Um outro carnaval em Salvador é possível, mas ele exige uma mudança radical de perspectiva. Exige reconhecer os ambulantes como trabalhadores com direitos, e não como problemas a serem controlados. Democratizar o uso do espaço urbano, limitando a privatização e garantindo áreas realmente livres configura-se de fundamental importância para uma arte-cultura verdadeiramente popular. Exige, também, transparência na gestão dos recursos, participação popular nas decisões e compromisso com a justiça social. Por fim, sobretudo, demanda coragem política para enfrentar interesses poderosos que se acostumaram a lucrar com a desigualdade. Enquanto a segregação socioespacial reinar em Salvador, a festa seguirá sendo um espelho cruel da cidade que somos, um território que dança sobre o cansaço de muitos, canta sobre a dor de quem trabalha até a exaustão e celebra a diversidade enquanto mantém intactas as estruturas de exclusão. O carnaval, nesse contexto, deixa de ser um evento anual e se revela como um retrato condensado de um projeto urbano que precisa ser urgentemente questionado. Olhar para o carnaval de Salvador com olhos geográficos é um exercício de desvelamento. É perceber que cada grade tem um significado, que cada circuito [Dodô (Barra–Ondina), Osmar (Campo Grande) e Batatinha (Centro Histórico)] desenha uma fronteira social, que cada regra imposta ao trabalhador informal expressa uma relação de poder. É entender que a festa não acontece no vazio, mas em uma cidade marcada por história de escravidão, racismo estrutural e desigualdade profunda. E é justamente por isso que o debate sobre o carnaval não pode ser superficial ou festivo demais, ele precisa ser político, crítico e comprometido com a transformação. Se o carnaval é, como se diz, o momento em que Salvador se mostra ao mundo, então é preciso decidir que imagem queremos mostrar. Desejamos expor uma cidade que se orgulha de sua cultura, mas explora seu povo ou uma cidade que reconhece que alegria sem justiça é apenas encenação? A resposta a essa pergunta definirá o futuro da “festa” e o próprio sentido de cidade que estamos construindo. (*) Jean Lucas Vinhas Medeiros de Carvalho é doutorando em geografia na Universidade de Brasília. Professor de geografia da rede pública estadual da Bahia.
