Por que crimes tão violentos estão ocorrendo dentro das próprias famílias?
Há uma sensação difusa no ar, como se o mundo tivesse perdido um pouco da sua capacidade de conter o próprio impulso destrutivo. A cada notícia, a cada relato sussurrado em mesas de jantar, cresce a impressão de que a violência não está apenas mais brutal — ela está mais próxima. Mais íntima. Mais doméstica. E talvez seja exatamente isso que mais nos assuste: não é mais “lá fora”. Está dentro das casas, das histórias de família, das memórias de infância. Parte dessa percepção nasce da exposição. Nunca soubemos tanto, tão rápido, sobre tudo. O sofrimento, que antes ficava preso entre quatro paredes, agora atravessa telas em segundos. Mas reduzir tudo à visibilidade seria confortável demais. Existe algo mais profundo acontecendo — algo estrutural, emocional, social e até existencial. Vivemos em uma era de sobrecarga. Sobrecarregados de informação, de comparação, de cobrança, de medo do futuro, de frustração com o presente. A promessa de uma vida melhor foi vendida como algo inevitável, e quando ela não chega, sobra um vazio difícil de nomear. Esse vazio, quando não é trabalhado, vira raiva. E a raiva, quando não encontra saída saudável, vira violência. Dentro das famílias, a violência cresce porque a família sempre foi o primeiro território onde aprendemos poder, afeto, controle e limite. Se uma pessoa cresce sem ferramentas emocionais, sem escuta, sem validação — mas também sem responsabilidade sobre os próprios atos — ela não aprende a lidar com frustração. Aprende a reagir. Aprende a atacar. Aprende que amar pode significar possuir. Que discordar pode significar trair. Que perder controle pode ser justificável. Existe também uma solidão coletiva. Nunca estivemos tão conectados e tão isolados ao mesmo tempo. As redes criaram vitrines de felicidade permanente, enquanto a vida real continua sendo feita de contas, cansaço, rejeições e medos. Essa discrepância gera vergonha. E vergonha silenciosa vira ressentimento. E ressentimento acumulado, dentro de ambientes fechados, vira pólvora. Outro ponto incômodo é que perdemos, aos poucos, os espaços de elaboração emocional. Antigamente, existiam mais redes de convivência orgânica: vizinhos, parentes próximos, comunidades religiosas, encontros presenciais frequentes. Hoje, muita gente vive sem testemunhas da própria dor. E dor sem testemunha vira dor distorcida. Vira dor que explode. Também há um fenômeno mais duro de encarar: a banalização da agressividade. Violência virou linguagem cotidiana — verbal, simbólica, digital. As pessoas se acostumam a ver humilhação como entretenimento, agressividade como força, crueldade como sinceridade. Quando isso entra na cultura, entra nas casas. Mas talvez o ponto mais doloroso seja este: muitas pessoas não aprenderam a existir consigo mesmas. Não aprenderam a lidar com rejeição, abandono, sensação de fracasso, perda de controle. E quando alguém não suporta a própria dor, muitas vezes tenta destruí-la fora — em alguém próximo, mais vulnerável, mais acessível. Isso não significa que a humanidade tenha virado apenas um lugar ruim. Significa que estamos vivendo um período de tensão emocional coletiva. Um período onde as máscaras sociais estão mais frágeis, onde as pessoas estão mais cansadas, mais assustadas, mais pressionadas a dar conta de tudo sem saber como. A violência familiar é, muitas vezes, o sintoma mais brutal de algo maior: a falência do diálogo, da escuta, da educação emocional, da noção de comunidade. É o grito mais feio de uma sociedade que ensina desempenho, mas não ensina humanidade. E talvez a pergunta mais honesta não seja “por que o mundo ficou tão ruim”, mas sim: o que deixamos de cultivar enquanto corríamos atrás de sobreviver? Talvez deixamos de cultivar paciência. Presença. Responsabilidade emocional. Limite saudável. Talvez confundimos liberdade com ausência de consequência. Talvez confundimos amor com dependência. Talvez confundimos força com frieza. O mundo não virou um lugar impossível de existir. Mas virou um lugar mais exigente para quem quer existir com consciência. Exige que as pessoas aprendam a olhar para dentro — e isso é assustador. Porque dentro de cada pessoa existe beleza, mas também existe sombra. E encarar a própria sombra exige maturidade que nem todos tiveram chance de desenvolver. Ainda assim, existe algo que persiste: a capacidade humana de reconstruir significado. De reaprender. De romper ciclos. A história da humanidade sempre foi uma sequência de quedas morais seguidas de tentativas de reconstrução. Talvez estejamos, agora, em mais um desses momentos. E talvez a saída não esteja em esperar que o mundo melhore primeiro. Talvez esteja em pequenas revoluções silenciosas: gente aprendendo a conversar antes de gritar. A sair antes de destruir. A pedir ajuda antes de colapsar. A entender que sentir dor não autoriza causar dor. Porque, no fim, a humanidade nunca foi um lugar seguro por natureza. Ela sempre foi um projeto em construção. E projetos só desmoronam quando ninguém mais acredita que vale a pena reconstruir. (*) Cristiane Lang, psicóloga especialista em oncologia.
