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“Quatreros” da Argentina e Paraguai, a origem do banditismo na fronteira

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Dois eram os lugares preferidos para contratar funcionários da Matte Laranjeira, a maior empresa do inicio do século passado do Mato Grosso do Sul: Encarnación, no Paraguai, e Posadas, na Argentina. Dois centros, nessa época, de trabalhadores do mato. O interessado podia escolher à vontade, pois existia trabalho de vários tipos: serrador, roceiro, carpinteiro, condutor de carroças, domador, farinheiro e tantos outros. Três dias de bebedeira. Cada grupo tinha um chefe. Acertado com este, era só receber algum adiantamento combinado. Depois, era ter paciência com os três ou quatro dias de bebedeira. Uma festança doida, com gritos, bailados, provocações e brigas. Passada a festança, começava a viagem à Matte Laranjeira. Os “pesos mortos”. Na empresa, tudo que gastavam, incluído o adiantamento, todas as despesas eram inscritas na “cardineta de limites”, uma contabilidade altamente desvantajosa para os trabalhadores. Também era difícil adaptarem-se. Nem todos conseguiam. Passavam a ser um “peso morto” para a empresa. Peões de produção limitada, ou mesmo quase nula. Nestas circunstâncias não saldariam, nunca, a divida. Seriam demitidos. “Você é para baixo”: a demissão. Depois do acerto de contas, fosse qual fosse o resultado, vinha a expressão bem conhecida: “você é para baixo”. Significava que o peão teria de descer o rio em direção ao Paraguai ou Argentina. Essa demissão constituía-se em um grande tormento. O demitido teria um destino de amarguras. A humilhante condição de dispensado era-lhe adversa em todos os sentidos. Era um espinho atravessado na garganta de cada um. Peão sem trabalho, virava “quatrero”. Peão, nessa situação, era peão sem trabalho. Peão sem patrão. Em marcha para o desespero. Muitos e muitos “quatreros” que infestaram as fronteiras do Brasil-Paraguai vieram desses inadaptados, desses dispensados de triste memória.