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Monitorando o pulso do Araguaia

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Por: Luis Mauricio Bini e João Carlos Nabout – Especial para o Jornal “Opção”  

O prefixo “meta”, de origem grega, expressa a ideia de algo que vai além. Na ecologia, ao longo das últimas décadas, o conceito de “meta-sistemas” tem sido usado para descrever ecossistemas fortemente interligados por fluxos espaciais de energia, materiais e organismos. Por exemplo, um estuário pode ser definido como um meta-sistema, no qual múltiplos ambientes são interconectados e fortemente influenciados por fluxos bidirecionais de água, sedimentos e organismos provenientes de rios e do mar.

Nos continentes, os sistemas rio-planície de inundação são arquétipos de meta-sistemas. Vários dos grandes rios do Brasil podem ser assim classificados. Nesses sistemas, as interações entre os ambientes terrestres e aquáticos são fortemente controladas pelo regime hidrológico, caracterizado pela alternância entre períodos de seca (águas baixas) e cheia (águas altas). Essas interações podem ser ilustradas, por exemplo, quando as cheias conectam ou aumentam a conectividade entre o canal principal do rio e as lagoas marginais e, desse modo, possibilitam que muitas espécies de peixes cheguem a essas lagoas para fins reprodutivos. Além de regular os fluxos entre rios e lagoas, o regime hidrológico também conecta os ambientes aquáticos aos terrestres. Durante as cheias, o rio transborda e deposita sedimentos e nutrientes sobre a planície de inundação, fertilizando o solo e moldando a estrutura da vegetação. Com o recuo das águas, por sua vez, a matéria orgânica produzida na planície durante o período de seca pode ser incorporada de volta aos ambientes aquáticos no próximo período de cheia, caracterizando um intercâmbio bidirecional entre o rio e a planície. Assim, o chamado pulso de inundação, conceito proposto pelo cientista alemão Wolfgang Johannes Junk e colaboradores em 1989, é a principal força responsável pelo funcionamento ecológico dos sistemas rio–planície de inundação.

Diagrama conceitual mostrando os períodos hidrológicos extremos em uma planície de inundação (águas baixas e águas altas, respectivamente). Durante o período de águas baixas, os ambientes são mais isolados e funcionam de forma relativamente independente. Com a elevação do nível da água, as cheias aumentam a conectividade entre rios, lagoas marginais e áreas alagadas, permitindo o deslocamento de organismos e o fluxo de matéria e energia. Essa alternância entre isolamento e conexão ilustra o funcionamento da planície de inundação como um meta-sistema, em que as cheias promovem a integração temporária entre ambientes, influenciando a dinâmica ecológica da planície como um todo. Figura baseada no trabalho clássico de Wolfgang Junk e colaboradores, publicado em 1989 e elaborada com o auxílio de inteligência artificial (“Gemini”). 

Nesse contexto, a planície de inundação do rio Araguaia pode ser destacada no cenário nacional e mundial por estar livre de barragens. Em outras palavras, o pulso de inundação, a principal força que regula esses sistemas, ainda está preservado. Ao contrário de outros grandes rios do Brasil, a ausência de barragens possibilita a observação de processos ecológicos em sua forma original e, portanto, o rio Araguaia constitui um excelente modelo de sistema para testar diferentes hipóteses científicas. Por exemplo, como a alternância dos períodos de seca e cheia controla a variação ambiental e biológica? Podemos esperar que, durante os períodos de seca, as lagoas marginais estejam mais isoladas e, portanto, estes ambientes sejam mais diferentes em termos de características químicas (e.g., concentração de oxigênio dissolvido) e biológicas (e.g., composições de organismos aquáticos). Isso ocorreria porque as lagoas sofrem a influência de diferentes processos locais. Por exemplo, um lago mais exposto à ação do vento tende a apresentar maior mistura da coluna d’água, promovendo a ressuspensão de sedimentos e o aumento da turbidez, o que reduz a disponibilidade de luz e, consequentemente, a densidade de algas. Em contraste, lagos mais protegidos da ação do vento apresentam menor turbidez e, consequentemente, maiores densidades desses organismos. Assim, podemos esperar também que, durante os períodos de seca, os ambientes aquáticos apresentem diferentes composições de espécies. 

Por outro lado, espera-se que as cheias promovam o efeito oposto, ao aumentar a conexão entre os ambientes aquáticos e tornar suas características ambientais e composições de espécies mais semelhantes. As cheias também exercem um papel de renovação ecológica: ao conectar os ambientes e redistribuir organismos e recursos, elas permitem que as comunidades biológicas sejam constantemente “remontadas”. Esse processo funciona como um reinício do sistema, essencial para a manutenção da biodiversidade ao longo do tempo. Assim, as cheias atuam de maneira semelhante ao fogo natural no Cerrado, ao reorganizar a estrutura da vegetação e sustentar a elevada biodiversidade do bioma. Em última instância, é justamente a variação hidrológica que garante a estabilidade ecológica do rio Araguaia ao longo do tempo.

Reconhecendo a importância da planície de inundação do rio Araguaia como um modelo de estudo ímpar, diversos grupos de pesquisa do estado de Goiás – como vem sendo divulgado aqui na coluna “Araguaia em Foco” – têm investigado diferentes aspectos ecológicos dessa planície. Entre as iniciativas já em andamento, estão os projetos PPBio Araguaia (@ppbio.araguaia), executado pela PUC-Goiás com financiamento do CNPq, e o “Araguaia Vivo 2030” (@araguaiavivo), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG), gerenciado pela Tropical Water Research Alliance (TWRA). Em 2026, um novo projeto científico financiado pela FAPEG foi iniciado: o Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração do Araguaia (PELD Araguaia). Este último projeto está sediado na região de Luiz Alves, em uma das porções mais preservadas do rio, e reúne uma rede interdisciplinar de pesquisadores de diferentes instituições, entre elas a Universidade Estadual de Goiás, a Universidade Federal de Goiás, a Universidade de Brasília, a PUC Goiás, a Universidade Federal de Jataí, a Universidade Estadual de Maringá e o ICMBio. 

O PELD é um programa nacional do CNPq que apoia pesquisas ecológicas de longa duração em todo o território brasileiro, abrangendo atualmente 55 áreas de estudo. Nesse contexto, o PELD Araguaia, reconhecido pelo CNPq como parte da rede PELD em 2024, contará com o financiamento da FAPEG, cujo apoio tem sido decisivo para o fortalecimento dos grupos de pesquisa e para a consolidação das atividades científicas na região. Assim, além de ampliar a capacidade de monitoramento de longo prazo, o programa fortalece a infraestrutura científica local, contribui para a formação de recursos humanos e gera informações estratégicas para a conservação da biodiversidade e o uso sustentável dos recursos naturais. Em escala mais ampla, o PELD está alinhado a programas internacionais de monitoramento de longo prazo, como o LTER (“Long Term Ecological Research”), que reúne estudos semelhantes em diversos países.

Os ecossistemas estão em constante transformação. Por isso, estudos conduzidos em um dado momento, apesar de sua importância (por exemplo, para o inventário da biodiversidade), representam apenas uma “foto” do sistema ecológico sob investigação. No entanto, para assistirmos ao “filme”, as chamadas Pesquisas Ecológicas de Longa Duração são essenciais. Isso significa que os mesmos ambientes são continuamente estudados ao longo dos anos. Essa analogia não é exclusiva da ecologia. Dados obtidos em estudos de longo prazo têm se mostrado críticos para o avanço científico de diferentes áreas. Na medicina, o Framingham Heart Study, conduzido na cidade de Framingham (Massachusetts, EUA), é um exemplo paradigmático: ao acompanhar gerações de moradores por décadas, o estudo consolidou o conceito de “fator de risco” e revelou a ligação entre comportamentos como tabagismo e sedentarismo e as doenças cardiovasculares. 

Por questões de bioética, essa relação de causa e efeito não poderia ter sido estabelecida utilizando o “padrão-ouro” do método científico em medicina, ou seja, ensaios clínicos randomizados duplo-cegos. Analogamente, sabemos que o rio Araguaia enfrenta pressões crescentes relacionadas, por exemplo, à subtração de água para diferentes usos. Esse risco se soma às pressões das mudanças climáticas globais, que tendem a intensificar extremos hidrológicos e aumentar a vulnerabilidade do sistema. Claramente, não podemos realizar experimentos em grande escala para avaliar qual a importância dessas pressões sobre a biodiversidade. No entanto, com o PELD Araguaia, poderemos avaliar como a interação entre o regime hidrológico e essas pressões influencia diferentes grupos de organismos – desde microscópicos, como plâncton, até organismos macroscópicos, como peixes. 

Voltando para a comparação com a medicina, enquanto o Framingham Heart Study monitora, por exemplo, a pressão arterial, e as concentrações de triglicerídeos e colesterol das pessoas, a equipe do PELD Araguaia irá monitorar, nos mesmos ambientes, características físicas (e.g., temperatura) e químicas da água (concentrações de nutrientes), além de abundância e riqueza de espécies aquáticas, para estabelecer o que podemos chamar de linha de base. A partir dessa referência, será possível avaliar os efeitos de eventos previsíveis sobre a biodiversidade, como as cheias e secas anuais, bem como os impactos de fenômenos episódicos, como secas extremas, revelando, ao longo do tempo, como o Araguaia responde e se reorganiza diante das mudanças e pressões ambientais.

Os estudos ecológicos podem ser realizados de diferentes maneiras. Levantamentos da biodiversidade em um dado momento representam uma “fotografia” do sistema, sendo especialmente relevantes para a análise de muitos ambientes (e.g., lagoas marginais ou trechos ao longo do rio principal). Por outro lado, Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD) funcionam como um “filme” do sistema, ao permitir o monitoramento contínuo dos mesmos ambientes ao longo do tempo, possibilitando a identificação de tendências, impactos antrópicos e a avaliação da eficácia de medidas de manejo e conservação da biodiversidade. Figura elaborada com o auxílio de inteligência artificial (Gemini). 

Podemos adicionar uma camada de complexidade ao reconhecer que os rios e suas planícies de inundação não são apenas sistemas ecológicos, mas sim sistemas socioecológicos complexos. Esse conceito enfatiza que sociedades humanas e ecossistemas estão interligados em uma relação de codependência: decisões sociais moldam ecossistemas, e a dinâmica ecológica, por sua vez, condiciona práticas sociais e econômicas. No caso do Araguaia, isso significa considerar não apenas os processos hidrológicos e biológicos, mas também as interações com pescadores locais, povos originários da Ilha do Bananal, além das atividades de turismo e agropecuária. Esses elementos sociais e econômicos estão fortemente conectados ao funcionamento ecológico do sistema, reforçando a necessidade de abordagens integradas que contemplem tanto a natureza quanto as comunidades que dela dependem. O PELD Araguaia considerará essa dimensão socioecológica por meio da análise de serviços ecossistêmicos, avaliando como os processos naturais podem garantir benefícios diretos e indiretos para as pessoas. Isso inclui, por exemplo, a provisão de alimentos e água, a manutenção de áreas de lazer e turismo, bem como a regulação de processos ambientais, como a qualidade da água. Ao integrar essas informações, o programa permitirá compreender não apenas como o Araguaia funciona, mas também como conservá-lo para a manutenção da biodiversidade e para o benefício da população da região.

Confira quem são os autores do artigo

Luis Mauricio Bini – Professor na Universidade Federal de Goiás, pesquisador no “PPBio Araguaia” e do “PELD Araguaia”

João Carlos Nabout – Professor na Universidade Estadual de Goiás, coordenador do PELD Araguaia, coordenador da Atividade de biodiversidade aquática no Programa “Araguaia Vivo 2030” da TWRA, pesquisador no “PPBio Araguaia”

Leia também: Expedição Araguaia 2026: ciência e sustentabilidade no coração do Brasil

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