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Robert Walser e o bandido louco

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Ronaldo Costa Fernandes

Especial para o Jornal Opção, de Barcelona

Robert Walser (1878-1956) publicou três romances e deixou inédito uma quarta narrativa. Esta última, “O bandido”, escrita em 1925, foi encontrada depois de sua morte. Walser escrevia com letra miúda, cifrada, com lápis e com pouco espaço entre linhas. Foi preciso que um crítico decifrasse o manuscrito de vinte e quatro folhas com trinta e cinco parágrafos, como se estivesse diante de uma mensagem criptografada.

No romance, o personagem principal, que não tem nada de criminoso, mostra-se apenas como uma pessoa errática, um aventureiro que oscila entre o amor de duas mulheres e aqui e ali vive peripécias da sociedade burguesa. Joechen Greven observa que, mesmo neste romance ainda em rascunho, estão presentes os comentários que são comuns aos outros romances como escarnecer da “própria miséria e dos problemas de identidade, e com ele também da situação da cultura e da sociedade, além dos problemas que representa fazer literatura”.

Durante muitos anos, Robert vagou de trabalho em trabalho, geralmente os mais ordinários desde balconista de loja, atendente em hotéis e livrarias e escriturário. A partir de 1925, se iniciam seus problemas mentais até que, em 1936, se interna voluntariamente numa casa de repouso. Mesmo após ser dada alta em sua permanência no sanatório, Walser se recusa a sair e continua a morar no asilo até sua morte, de enfarte, caminhando no branco contínuo da neve.

Alguns temas ou situações são comuns aos quatro romances como, por exemplo, a ocupação temporária em atividades laborais sempre de menor instrução. Se pode incluir também, entre inúmeras outras, os diversos pontos de vistas entre irmãos e a atividade ambulatória dos personagens principais.

“Os Irmãos Tanner” (1907) dá início à publicação dos seus romances. Como todos os que virão a seguir, o personagem principal, Simon, deambula ordinariamente, fazendo observações pouco realistas, todas tomadas pela ótica irônica do narrador. Todos os romances de Walser mantêm o tom de escárnio.

“O Ajudante” é o segundo romance (1908) e tem por cenário uma bucólica região campestre, onde um empresário sonhador, Tobler, contrata para serviços de escritório um ajudante de nome Joseph. O que dá certa graça ao romance é justamente o contraste entre a “empresa” do sr. Tobler que se afunda em dívida, o mundo real de sua família, e a visão idílica do seu secretário que vê beleza e encantamento até mesmo na névoa do rigoroso inverno.

“O Ambiente de Jakob von Gunten”, terceiro romance publicado em 1909, se localiza numa escola chamada Instituto Benjamenta, onde os alunos pobres ou remediados são educados para ocupar funções subalternas na sociedade. O mundo do seminário está pleno de ordens e obrigações cujo objetivo é tornar seus discípulos em obedientes funcionários. Ser um excelente aluno do Benjamenta requer submeter-se aos mandamentos da instituição e mostrar-se pouco ambicioso. O romance todo é perpassado por uma crítica pouco realista, mais bem fundada sob a égide do deboche.

Pouco lido no Brasil, Robert Walser tem público garantido e ampliado na Espanha e Europa. O austríaco ainda fascina com seu cotidiano peculiar, sua maneira de revelar os atos ordinários como descentrados e que podem ser interpretados de forma não convencional. Por exemplo, o velho tema do educandário, bastante explorado antes e depois de Walser, em Jakob von Gunten, aqui não se restringe à descrição perversa da repressão educacional rígida. Há um toque de humor, de escárnio, de situações inusitadas e, quando se espera que venha o relato de uma punição por transgressão a narrativa passa ser vista pelo seu avesso e a cena se torna um desacerto cínico.

Se a literatura de Walser pouco se aproxima de um Kafka, pode-se observar sua influência em Robert Musil e seu “O Homem Sem Qualidades”. Os dois eram seus leitores.

Robert Walser: na juventude | Foto: Reprodução

O prestígio de Walser não se restringe apenas a seus coetâneos famosos, mas também a escritores vivos como o catalão Enrique Vila-Matas e o sul-africano J. M. Coetzee. Ao abandonar qualquer pretensão a uma literatura cheia de equívocos, reviravoltas, peripécias e centrar-se no desfocado ponto de vista de um personagem principal aturdido e que tem dificuldade de enquadrar-se e ao mesmo tempo mostrar seu desconforto na civilização, Walser ingressa soberbamente na modernidade, dando adeus a um realismo restritivo.

Ronaldo Costa Fernandes é poeta, prosador e crítico literário.

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