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A velha nova guerra interna do PL

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Partidos radicalmente antagônicos em posições e discursos, PT e PL funcionam como água e óleo na política brasileira. Não se misturam, não dialogam e não cedem. Ainda assim, compartilham um traço inegável: são movidos por paixão e ideologia em grau quase absoluto, talvez mais do que qualquer outra legenda relevante no país.

Para quem milita em uma dessas siglas, não existe meio-termo, “zona cinzenta”. De um lado, tem-se a defesa quase que devocional do presidente Lula e de seu legado; de outro, a exaltação de Jair Bolsonaro como líder absoluto, símbolo de um projeto político que vai além do mandato exercido no Planalto. Não se trata, aqui, apenas de apoio partidário, mas de um quase pertencimento identitário.

Justamente por dividirem o mesmo modo de existência, PT e PL convivem com conflitos internos constantes. As disputas não são apenas estratégicas, mas narrativas. Costuma sair por cima a ala mais apaixonada, mais enraizada e, sobretudo, mais bem posicionada institucionalmente (leia-se, quem tem mandato e apoio popular). O PL em Goiás vive exatamente essa realidade.

O partido de Bolsonaro, que em Goiás tem nomes como o senador Wilder Morais e o deputado federal Gustavo Gayer, vive um processo interno de incêndio para definir orumo no pleito estadual. Tem-se, de um lado, os que defendem aliança com o vice-governador Daniel Vilela, pré-candidato ao Palácio das Esmeraldas, garantindo espaço na chapa e uma vaga competitiva ao Senado. E de outro, os que defendem que o PL precisa ter candidatura própria ao governo, com Wilder Morais liderando a chapa.

Essa costura de aliança não é recente, vem sendo trabalhada há tempos por uma ala do partido e por interlocutores do governo estadual, que teriam levado as negociações às fases finais. Em janeiro deste ano, o governador Ronaldo Caiado afirmou ter se reunido com Flávio Bolsonaro, provável candidato à Presidência com o aval do pai, e sinalizou que a composição em Goiás estava praticamente fechada.

Nos bastidores, a informação é de que o PL deve caminhar com Daniel Vilela, abrindo mão de candidatura própria ao governo. A questão admitida até por quem banca essa composição é que Wilder não demonstra qualquer disposição para recuar.

Ness sábado, 14, o senador foi à Papudinha, onde Jair Bolsonaro cumpre pena por tentativa de golpe de Estado, numa última tentativa de ter chancela definitiva do líder máximo do partido para seu projeto ao governo de Goiás.

O resultado: uma guerra de versões. Wilder afirma ter recebido sinal para seguir como pré-candidato. Gayer rebate, acusa o senador de distorcer a conversa e de explorar a condição de Bolsonaro, preso e isolado, para legitimar uma narrativa.

Até as convenções partidárias, o que se desenha é um embate interno duro, travado menos por critérios técnicos e mais pelo capital simbólico de cada um. Wilder sustenta que representa o bolsonarismo raiz no estado, que tem mandato, estrutura e capacidade de montar palanque robusto para Flávio Bolsonaro. Gayer e os defensores da aliança operam com um argumento mais pragmático: Wilder não lidera pesquisas, pode perder para Daniel Vilela e ainda comprometer o principal objetivo estratégico do PL, ampliar sua bancada no Senado. No fim das contas, a disputa não é sobre identidade ideológica, mas sobre cálculo de sobrevivência política.

A experiência recente em Goiânia serve de alerta. Na eleição municipal, o partido quase fechou com o candidato governista Sandro Mabel, mas optou, na última hora, por candidatura própria. O resultado foi derrota e desgaste com a cúpula nacional.

No fundo, o que se observa é um partido refém da própria retórica. A paixão que o fortalece eleitoralmente também o empurra para decisões movidas mais por orgulho e fidelidade simbólica do que por estratégia racional. O PL em Goiás parece repetir um padrão já conhecido: prefere a pureza do discurso ao risco calculado da pragmática, mesmo quando a conta política é evidente. Se insistir em transformar cada divergência em teste de lealdade ideológica, pode descobrir que a coerência que tanto proclama não passa de um luxo que as urnas raramente perdoam.

Agora, vale saber se o partido vai preferir, de novo, a pureza do discurso que levou à derrota nas urnas em 2024 ao risco contido e calculado da pragmática, mesmo com a conta política evidente.

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