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Costela de gaúcho conquistou ex-prefeito da Capital e virou negócio de família

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Assar costela é quase uma arte quando o assunto é churrasco. Gastão Armando Frandosolo a dominava e, anos após mudar-se para Campo Grande, abriu um restaurante simples que se popularizou tendo o ex-prefeito Juvêncio César da Fonseca como um dos clientes mais fiéis. O churrasqueiro nasceu em Espumoso, no Rio Grande do Sul. Sem medo de arriscar, decidiu largar o emprego como assador na churrascaria do pai e aceitar um convite para trabalhar num restaurante da capital de Mato Grosso do Sul chamado Zuzu, em 1973. Gastão já era casado e dois dos quatro filhos eram nascidos, os gêmeos Ulisses e Vinicius. Jakson estava na barriga da mãe e a caçula, Dorilini Aparecida, veio por último. Trabalhar com carne era algo de que gostava, mas também uma necessidade para manter a família. O gaúcho foi funcionário em Campo Grande por pouco mais de um ano. Insatisfeito por não ter recebido todo o valor do salário prometido pelo patrão, saiu de mais esse emprego e decidiu ir para Presidente Prudente (SP), onde abriu o primeiro restaurante próprio ao lado de um posto de combustível. O local tinha bastante movimento e multiplicou a renda da família, que passou a morar no local. Deu tudo certo até o proprietário do imóvel do interior de São Paulo pedir o prédio. Gastão resolveu voltar para Campo Grande em 1980 e tentar repetir o sucesso de Presidente Prudente tendo um tio como sócio. A nova churrascaria foi batizada de Montreal e ficava na região norte da Capital. Mas a empreitada não saiu como esperado. A sociedade durou só dois anos. O momento seguinte pediu mais coragem e Gastão abriu de novo um restaurante sozinho num ponto oposto da cidade, no Bairro Moreninhas. Ele se chamava Churrascaria do Gaúcho. Outra crise surgiu. Com os quatro filhos para criar ao lado da esposa, o negócio quebrou e ele precisou recalcular a rota.  A saída foi virar vendedor de carros usados na antiga Pedra, ponto de venda ao ar livre que ficava na Avenida Afonso Pena, a principal via de Campo Grande. Além de dinheiro, o pai de família fez também muitos amigos no ramo. Era comunicativo, divertido e gostava de participar de festas regadas a churrasco com os colegas. Costela famosa entre os amigos Gastão virou o assador de costela oficial da turma de vendedores. Os colegas o elogiavam e um deles fez a sugestão que mudou novamente o destino do gaúcho. “Por que você não monta um restaurante e chama ele de Costelaria do Gaúcho?”, perguntou. A ideia do foco na costela animou e ele voltou a ser empresário. Abriu a Costelaria do Gaúcho Gastão na Rua 14 de Julho, num salão com mesas para 40 clientes, ao lado de um antigo lava a jato. Ainda não satisfeito com o lugar escolhido, decidiu alugar um novo prédio na avenida mais comercial da época, a Calógeras, perto de uma antiga concessionária de veículos. Foi lá que o sucesso começou a chegar. Trabalho redobrado e ex-prefeito Embora simples, a costelaria começou a ganhar fama no início da década de 1990 por ser a única especializada no corte da carne e estar numa localização privilegiada. A propaganda do boca a boca trouxe clientes importantes como o prefeito da época, Juvêncio César da Fonseca, e vereadores que gostavam de almoçar por lá. A costela exige mais trabalho no churrasco porque é necessário deixar horas no fogo para esse corte da carne amaciar. Gastão e os filhos acordavam meia-noite para colocar a primeira leva para assar. Os gêmeos e o do meio dormiam um pouco e levantavam às 6h para ajudar a mexer com a churrasqueira. O pai ficava lá durante toda a madrugada. Os assados ficaram mais simples de fazer quando a família decidiu ampliar o espaço em 70 m² e construir uma churrasqueira grande, ocupando o terreno ao lado.  Até 100 peças de costela Tudo ia bem, até precisarem deixar mais um imóvel. O proprietário quis aumentar o preço do aluguel, apesar da ampliação assumida pelo inquilino, e não houve acordo entre eles. Gastão, os filhos e a esposa encontraram um prédio na Avenida Salgado Filho e chamaram o caminhão de mudança, sem medo. No novo endereço, o sucesso da Avenida Calógeras se consolidou. Os assadores faziam até 100 peças de costela nos dias mais movimentados. A costelaria começou a anunciar o rodízio e recebia cada vez mais clientes. As filas aos domingos eram grandes. Gastão era querido pelos clientes. Chamava os mais chegados de gaudério, uma gíria gaúcha para homem malandro, esperto. Fazia questão de conhecer cada cliente, mesa por mesa, e conversava de um jeito alegre.  Apareceram concorrentes naquele período, mas a costela do gaúcho ganhou a maior fama. Tinha um padrão diferente porque ele escolhia a carne a dedo, indo pessoalmente até os pequenos frigoríficos que a Capital tinha para fazer as compras da mercadoria. Arriscou demais Outra crise chegou quando Gastão fechou a churrascaria na Avenida Salgado Filho e decidiu abrir uma em Goiânia (GO), após uma viagem de férias. Ele gostou da cidade e quis empreender por lá. O sucesso não acompanhou. O empresário perdeu metade do patrimônio investido, o equivalente a cerca de R$ 2 milhões hoje. A decisão foi voltar para Campo Grande, onde abriu um novo restaurante, com outro nome, na Rua 14 de Julho por mais de 10 anos, até estabilizar-se. Com o negócio estagnado, mudou-se mais uma vez e reabriu a Churrascaria do Gaúcho Gastão num endereço próximo do Shopping Campo Grande. Houve uma nova crise financeira e, lá, a família se dividiu. Um dos irmãos mudou de ramo, outros dois abriram os próprios restaurantes e o filho do meio continuou tocando o negócio com o pai. É ele quem conta a história da empresa de família até aqui.  Fim da vida e legado O pai adoeceu e descobriu um câncer na cabeça. O tratamento era delicado e os filhos insistiram para que ele parasse de trabalhar, mas ele não parou. Saiu do restaurante e o deixou nas mãos de Jakson. Penhorou bens e abriu uma churrascaria menor no Centro, próxima à Maternidade Cândido Mariano. Lá, trabalhou com a esposa até uma nova crise. Voltou a ficar com filho até os últimos dias de vida. “Mesmo mancando, porque o câncer afetou a mobilidade, ele andava no salão e cumprimentava os clientes com a mesma simpatia de sempre. Nos últimos meses de vida, sossegou, começou a descansar”, ele lembra. O filho do meio também precisou fechar a costelaria e a reabriu depois na Avenida Mascarenhas de Moraes, com o mesmo nome que o pai escolheu. Saber fazer uma costela com paciência e qualidade ficou como herança do pai, mas a instabilidade e as mudanças que marcaram a empresa por anos, o filho procura deixar para trás. A churrascaria de Jakson segue no mesmo endereço há sete anos e começou a se diversificar, servindo costela e outros cortes de carne no almoço e pizza à noite.  Um dos gêmeos mantém uma costelaria com nome igual, que faz apenas entregas, e o outro não trabalha mais na área comercial. A caçula abriu um restaurante homenageando o pai, chamado de Seu Gastão, na Avenida Hiroshima.  Alguns netos de Gastão seguem os mesmos passos no ramo empresarial e dariam orgulho ao fundador, diz Jakson. Além de um jeito especial de fazer costela e tratar cada cliente, o que ficou foi saudade do gaúcho que criou quatro filhos longe do Rio Grande do Sul, entre os altos e baixos da vida de empresário.