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Polarização institucionalizada: quando a divisão deixa de ser ruído e vira estratégia

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Antes mesmo de abril, período das inscrições eleitorais e início formal das candidaturas, o Brasil já se encontra mais polarizado do que nunca, com os extremos ideológicos operando em permanente estado de mobilização.

Pela direita, a condenação do ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado reacendeu um discurso político marcado pela radicalização, com ataques e investidas típicas da extrema-direita, incluindo o uso sistemático de fake news e a manipulação da opinião pública. Soma-se a isso o vácuo de poder eleitoral deixado pela inelegibilidade de Bolsonaro, que intensificou a disputa interna pela liderança desse campo político, elevando ainda mais o tom do embate retórico.

À esquerda, pressionada por esse ambiente, observa-se a adoção gradual de estratégias discursivas semelhantes às do bolsonarismo, com maior agressividade e apelos identitários. O resultado é o aprofundamento da lógica do “nós contra eles”, que não apenas reflete, mas amplifica a polarização existente.

Embora a agressividade eleitoral não seja novidade na política brasileira, basta recordar os debates inflamados de Carlos Lacerda na década de 1950, a institucionalização desse fenômeno representa uma mudança qualitativa relevante. Trata-se de um padrão que tende a assombrar o debate público nos próximos anos, sobretudo pelo aumento do engajamento político da população.

Esse cenário está diretamente relacionado, segundo pesquisas e estudos acadêmicos, à ascensão das redes sociais, que democratizaram o acesso ao discurso político de maneira inédita, mas também fragmentaram a esfera pública em bolhas de confirmação. Levantamento da AtlasIntel, de agosto de 2025, indicava que uma das principais preocupações dos brasileiros era o enfraquecimento da democracia, ficando atrás apenas de corrupção e criminalidade. No mesmo sentido, pesquisa do Pew Research Center apontou que 80% dos brasileiros percebiam forte conflito social entre apoiadores de diferentes posições políticas.

Esse caldo de tensão permanente não é um subproduto acidental do debate público contemporâneo. Ele vem sendo cultivado, estimulado e, mais recentemente, explorado como ativo eleitoral. A polarização deixou de ser apenas reflexo da cobertura midiática ou das dinâmicas digitais para se consolidar como estratégia consciente de mobilização, financiamento e fidelização de eleitores.

O problema é que, quando a lógica eleitoral passa a operar prioritariamente a partir do antagonismo, o conteúdo programático perde relevância. Propostas cedem espaço a palavras de ordem, diagnósticos complexos são substituídos por slogans, e o adversário político deixa de ser um concorrente legítimo para se transformar em inimigo moral. Nesse ambiente, o debate público não apenas se empobrece — ele se inviabiliza.

Há ainda um efeito colateral pouco discutido: a normalização da exceção. Discursos que relativizam regras democráticas, desacreditam instituições ou flertam com soluções autoritárias passam a circular com menor resistência, sob o argumento recorrente de que “o outro lado faria pior”. Trata-se de uma corrida para o fundo do poço, na qual a erosão institucional é apresentada como dano colateral aceitável.

Ao mesmo tempo, a imprensa e os próprios atores políticos acabam capturados por essa engrenagem. A polarização gera engajamento, cliques, audiência e votos. Romper com ela impõe custos políticos imediatos — e poucos estão dispostos a pagá-los em um cenário de disputa acirrada e calendário eleitoral apertado. Assim, o conflito deixa de ser um problema a ser enfrentado e passa a ser combustível de campanha.

Se nada mudar, o Brasil corre o risco de transformar eleições em plebiscitos emocionais permanentes, nos quais o medo do outro pesa mais do que a escolha de um projeto de país. A polarização, nesse contexto, não apenas antecede o processo eleitoral: ela passa a estruturá-lo. E quando o conflito vira método, a democracia deixa de ser o meio — e passa a ser o obstáculo.

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