Aplicar bem é tão importante quanto o produto usado na lavoura
A segurança no uso de pesticidas no campo não depende apenas do produto escolhido, mas, principalmente, da forma como ele é aplicado. A chamada tecnologia de aplicação reúne um conjunto de práticas, equipamentos e decisões técnicas que determinam se o defensivo vai cumprir seu papel com eficiência — ou se parte dele será desperdiçada, colocará pessoas em risco e causará impactos ambientais desnecessários. Especialistas da Embrapa destacam que uma aplicação tecnicamente correta é decisiva para reduzir a exposição do trabalhador rural, evitar contaminações fora da área tratada e aumentar a eficácia no controle de pragas, doenças e plantas daninhas. Na prática, isso significa olhar com atenção para o equipamento, a regulagem, o tamanho das gotas e as condições ambientais no momento da pulverização. O primeiro ponto crítico é o equipamento de aplicação. Pulverizadores — sejam eles costais, de barras, autopropelidos ou acoplados a tratores — precisam estar em bom estado de conservação. Vazamentos, mangueiras danificadas, filtros sujos ou bicos desgastados comprometem a uniformidade da aplicação e fazem com que volumes diferentes de produto sejam distribuídos ao longo da área, reduzindo a eficiência e aumentando riscos. Outro aspecto fundamental é a calibração do pulverizador. A regulagem correta define quanto de calda será aplicado por hectare, a pressão de trabalho e a velocidade de deslocamento do equipamento. Quando a calibração é negligenciada, o produtor pode aplicar mais produto do que o necessário — elevando custos e riscos — ou menos do que o recomendado, o que compromete o controle e pode favorecer resistência de pragas e doenças. As pontas de pulverização, popularmente chamadas de bicos, também têm papel central na tecnologia de aplicação. Cada tipo de ponta produz gotas com tamanhos diferentes, que influenciam diretamente a cobertura do alvo e o risco de deriva. Gotas muito finas podem até melhorar a cobertura, mas são facilmente levadas pelo vento. Já gotas maiores reduzem a deriva, mas exigem ajustes para garantir boa distribuição sobre folhas e plantas. Além do equipamento, as condições climáticas no momento da aplicação são decisivas. Ventos acima do recomendado, temperaturas elevadas e baixa umidade relativa do ar aumentam a evaporação das gotas e a deriva, fazendo com que parte do produto não atinja o alvo e possa alcançar áreas vizinhas, cursos d’água ou residências. Por isso, a orientação técnica é clara: aplicar apenas em condições adequadas, respeitando limites de vento, temperatura e umidade. A tecnologia de aplicação também envolve o planejamento da operação. Isso inclui definir o momento correto da pulverização, considerar o estágio da cultura e da praga, ajustar a altura da barra do pulverizador e respeitar as recomendações do rótulo e da bula dos produtos. Esses cuidados reduzem desperdícios e aumentam a efetividade do controle fitossanitário. Outro ponto destacado pelos pesquisadores é a capacitação do operador. Mesmo com equipamentos modernos, a aplicação perde qualidade quando quem está no comando não domina as regulagens, não reconhece sinais de desgaste ou ignora mudanças nas condições do ambiente. Treinamento contínuo e acesso à informação técnica são considerados essenciais para uma agricultura mais segura e eficiente. Ao integrar todos esses fatores — equipamento adequado, manutenção, calibração, escolha correta das pontas, atenção ao clima e capacitação — a tecnologia de aplicação se consolida como uma aliada da produtividade, da segurança do trabalhador e da proteção ambiental. Mais do que um detalhe operacional, aplicar bem é uma etapa estratégica da produção agrícola moderna, capaz de reduzir riscos, custos e impactos no campo.
