Do cafezal ao balcão, Walter aposta na confiança para servir café
De família italiana que chegou ao Brasil em 1891, pelo Porto de Santos, Walter Demundo, de 74 anos, nasceu em meio a cafezais de Dracena, São Paulo. Hoje, décadas depois, é ele quem serve a bebida na Vila Palmira, em Campo Grande, onde inaugurou em 2025 um pequeno café. Por ali, o espaço já conquistou a clientela, não só pelo sabor, mas pela simplicidade, atendimento familiar e pela confiança em Walter. Ao Lado B , ele conta que a relação com o café atravessa gerações. “Não tive como fugir, o café está na minha vida”, resume Walter, ao lembrar da origem da família e da própria trajetória. Ele chegou a Campo Grande aos 18 anos e construiu sua vida na Capital. A ideia do Café Demundo surgiu a partir do tempo ocioso do casal. “A minha esposa é aposentada da panificadora Tietê e ela estava ociosa, falava: ‘precisava arrumar alguma coisa para fazer’. Falei, então vamos abrir uma padaria, mas ela não concordou,” relembra. O desejo de montar o café tomou forma durante uma visita a Santa Catarina. O espaço onde o negócio funciona foi arrendado de uma chiparia que estava encerrando as atividades. “A ideia sempre foi um café tradicional italiano. [...] Não queríamos ter muitos funcionários, só um ou dois para nos auxiliar”, explica. A escolha por uma equipe reduzida influenciou diretamente no formato do atendimento. No Café Demundo, tanto o buffet colonial quanto os salgados são servidos pelos próprios clientes, que informam no caixa apenas o que consumiram, mesmo no buffet. “É um esquema de um café colonial. Você vem, se serve e não tem comanda. Depois, você vem e diz o que comeu. Mas, Walter, você vai levar ‘tinta’. Não acontece isso. Você tem que depositar confiança para que tenha respeito do pessoal”, afirma. A filosofia também se reflete na escolha dos produtos. “O nosso café é o mesmo café desde que abriu e até o dia que fechar, nós não iremos mudar de marca”, garante. O modelo permite um contato mais próximo com quem frequenta o espaço. O balcão é usado apenas no momento do pagamento; fora isso, fica livre. “O atendimento é familiar, vamos buscar a pessoa na porta. Quando chove, levamos guarda-chuva. É um atendimento bem diferenciado. Ninguém atende ninguém aqui de trás”, conta. A proposta tem dado certo. Aos sábados, dia de maior movimento, o café registra média de 250 atendimentos. Além do café e do buffet colonial, o espaço também se tornou ponto de permanência. “Tem uma senhora que vem aqui para ler a Bíblia e fica mais de 40 minutos. Outro senhor, de uns 74 anos, fica ali sentado lendo o seu livro. A gente queria ter um espaço maior para ter mais disso. A ideia é expandir para ter uma lareira quando chegar o inverno”, compartilha. A identidade do café também aparece na decoração, composta por trituradores de café e chaleiras antigas, que reforçam a atmosfera afetiva e remetem à tradição familiar. Esse toque pessoal se estende às redes sociais. No Instagram do Café Demundo, além das publicações dos produtos, há fotos de Walter e da esposa. “É a minha vida que está ali naquela postagem”, resume. O Café Demundo funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 11h30 e das 14h às 18h30. O café colonial é servido aos sábados e domingos, das 7h às 12h. A cafetaria fica na Rua Yokoama, 121, na Vila Palmira.
