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“Pobre”, “burro”, “analfabeto”: pesquisa revela aumento de xingamentos a nordestinos nas redes sociais em anos eleitorais

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Ofensas como “pobre”, “burro”, “analfabeto” e “ingrato” ganharam força nas redes sociais durante as últimas eleições presidenciais sendo referidas a nordestinos. Dados da SaferNet, organização que atua na defesa dos direitos humanos na internet, mostram que os ataques xenofóbicos a esse público na rede social X cresceram 821% em 2022, em comparação com 2021. Em 2018, também ano de eleição, o aumento já havia sido expressivo: 595,5%.

Esses dados foram analisados no estudo “Discursos de ódio em redes sociais: uma análise com processamento de linguagem natural”, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

A eleição presidencial deste ano ocorre em um contexto diferente. Será a primeira depois da mudança de entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet, que trata da responsabilidade das plataformas digitais em relação a conteúdos publicados por usuários.

Apesar disso, os ataques xenofóbicos devem continuar aparecendo nas redes em 2026. No entanto, a nova interpretação do STF e as punições aplicadas em eleições anteriores tendem a mudar a forma como esse debate acontece no ambiente online.

Com essa mudança, as plataformas passam a ter a obrigação de agir de maneira mais ativa na remoção de conteúdos ilegais. Empresas podem ser responsabilizadas caso não retirem publicações que promovam discurso de ódio, racismo, pedofilia, incentivo à violência ou defesa de golpe de Estado.

Ataques crescem em períodos eleitorais

Segundo a SaferNet, 2022 foi o terceiro ano eleitoral consecutivo com aumento de denúncias de crimes de ódio na internet. Além da xenofobia, também cresceram os registros de intolerância religiosa (522%) e de misoginia (184%).

O estudo do grupo Interfaces, da UFSCar, publicado na revista científica GEMInIS, analisou 282 milhões de postagens feitas no X entre julho e dezembro de 2022.

Os dados mostram que o discurso de ódio aumenta à medida que a eleição se aproxima. Em outubro de 2022, mês em que Lula (PT) venceu Jair Bolsonaro (PL), as menções ao Nordeste triplicaram em relação à média dos meses anteriores.

Casos de condenação

Em 2025, a Justiça do Rio Grande do Sul condenou o personal trainer Vinicius Francisco Barbosa da Silva a dois anos de prisão em regime aberto e ao pagamento de multa por ofender nordestinos nas redes sociais em outubro de 2022.

Em 2012, a estudante Mayara Petruso também foi condenada pela Justiça de São Paulo a um ano, cinco meses e 15 dias de prisão por publicar mensagens preconceituosas e incentivar a violência contra nordestinos durante as eleições de 2010.

A diretora da SaferNet Brasil, Juliana Cunha, reconhece que as punições têm um papel educativo, mas alerta que elas não são suficientes para resolver o problema sozinhas.

“Em anos eleitorais, principalmente em disputas presidenciais, a polarização é muito maior. Isso não muda só porque a lei ficou mais dura. Racismo e xenofobia são questões culturais e históricas”, afirma.

Como o ódio se espalha

Os pesquisadores usaram técnicas de Processamento de Linguagem Natural para entender como a polarização política estimulou ataques a nordestinos nas redes. O estudo identificou os termos mais associados à palavra “nordestino” e observou que as relações negativas aumentaram conforme a eleição se aproximava.

Setembro e outubro concentraram o maior volume de ofensas, sem termos positivos entre os mais citados. Em julho e agosto, predominavam palavras neutras. Em setembro, o termo “pobre” passou a aparecer com frequência; em outubro, surgiram com mais força palavras como “ingrato” e “analfabeto”. Em novembro, “burro” ganhou destaque, enquanto em dezembro as expressões ofensivas perderam espaço.

Segundo os autores, esses termos não faziam parte dos filtros de busca e apareceram de forma espontânea, o que reforça o caráter xenofóbico do discurso analisado.

Uma das frases identificadas pela pesquisa foi: “Esse povo do Nordeste burro não sabe votar.”

Os modelos usados no estudo analisaram as palavras associadas a “nordestino” e identificaram relações de sentido entre os termos.

Papel das plataformas

Além das punições individuais, os pesquisadores defendem maior responsabilização das plataformas digitais. Elas já possuem tecnologia para identificar discurso de ódio e agora podem ser responsabilizadas judicialmente caso não removam conteúdos criminosos.

Juliana Cunha destaca que será necessário acompanhar como as empresas vão aplicar as novas regras do Marco Civil, já que parte da moderação depende de análise humana. Ela cita o exemplo da Alemanha, onde a proibição ao discurso neonazista levou a regras mais rígidas, e defende medidas como a desmonetização de perfis que promovem ódio e o estímulo a conteúdos que combatam esse tipo de discurso.

O estudo conclui que postagens ofensivas não estão protegidas pela liberdade de expressão, pois violam a dignidade humana e podem ser enquadradas na Lei Antirracismo.

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