Vacina contra herpes-zóster pode reduzir em até 20% o risco de demência, aponta estudo
Um estudo internacional publicado em 2025 pela revista britânica Nature Medicine analisou dados de cerca de 280 mil pessoas e trouxe um novo olhar sobre os benefícios da vacina contra a herpes-zóster. Além de já ser amplamente reconhecida por prevenir a doença e suas complicações, a imunização foi associada a uma redução de até 20% no risco de desenvolvimento de demência.
Para o médico infectologista Marcelo Cecílio Daher, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), representante estadual da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e professor de Medicina da UniEvangélica, os resultados são animadores. “São dados bem otimistas e que nos deixam confiantes. Essa vacina já é utilizada há algum tempo, e a resposta é fácil de perceber por que o herpes-zóster é uma doença muito típica e visível”, explica.
Segundo o especialista, o estudo utilizou uma metodologia comparativa entre grupos vacinados e não vacinados, prática adotada em vários países. “Esse tipo de análise já vinha sendo feito, mas agora temos estudos mais robustos, com resultados ainda mais promissores. Eles confirmam que pessoas vacinadas tendem a apresentar menos demência do que aquelas que não receberam a vacina”, afirma.
Daher pondera que o efeito protetor pode não estar restrito apenas à vacina contra a herpes-zóster. “Talvez as vacinas, de modo geral, ao reduzirem doenças crônicas e inflamações persistentes, contribuam para um menor risco de demência. Menos doença crônica significa, muitas vezes, menos impacto cognitivo ao longo da vida”, avalia.
O que é a herpes-zóster
A herpes-zóster é causada pelo vírus da varicela-zóster, o mesmo responsável pela catapora. Após a infecção inicial, o vírus permanece latente no organismo, alojado nos nervos, podendo ser reativado anos ou até décadas depois, principalmente em situações de queda da imunidade.
“Todas as pessoas que tiveram catapora têm risco de desenvolver herpes-zóster em algum momento da vida. Popularmente, aqui na nossa região, a doença é conhecida como ‘cobreiro’”, explica o infectologista.
A reativação do vírus provoca uma intensa reação inflamatória, com lesões na pele que geralmente surgem em apenas um lado do corpo, seguindo o trajeto de um nervo, além de dor intensa. “É uma doença que pode causar muito sofrimento, principalmente pela dor”, ressalta.
Eficácia da vacina e relação com a demência
De acordo com Marcelo Cecílio Daher, a vacina reduz significativamente a chance de reativação do vírus. “Ela protege acima de 80% da população, inclusive pessoas muito idosas. Os vacinados tendem a ter menos doença, menos dor e menos inflamação”, diz.
Na avaliação do médico, essa menor resposta inflamatória pode explicar a associação com a redução do risco de demência. “A vacina ajuda o organismo a controlar melhor o vírus, evitando inflamações intensas e consequências sistêmicas. Isso pode ter impacto indireto na proteção do cérebro ao longo do tempo”, afirma.
A herpes-zóster é mais comum a partir dos 50 anos, mas pode ocorrer em qualquer faixa etária. “Ela aparece com mais frequência após os 50, mas pessoas mais jovens também podem desenvolver a doença, especialmente se tiverem algum grau de imunossupressão”, acrescenta.
Quem deve se vacinar
Os estudos indicam que toda a população pode se beneficiar desse efeito indireto da vacina, mas a recomendação formal é direcionada a grupos específicos. “A vacina é indicada para pessoas acima de 50 anos e para grupos de risco, como pacientes com câncer, pessoas vivendo com HIV e aqueles que farão uso de terapias imunossupressoras, mesmo a partir dos 18 anos”, explica Daher.
Segundo ele, esses grupos não apenas reduzem o risco de herpes-zóster, mas também podem se beneficiar da possível diminuição do risco de demência.
Acesso e custo no Brasil
Atualmente, a vacina contra a herpes-zóster não está disponível na rede pública de saúde no Brasil. “Ela está restrita à rede privada”, afirma o infectologista.
O custo é elevado: cada esquema vacinal, composto por duas doses, custa entre R$ 800 e R$ 900. “É um valor alto para a maioria da população brasileira, o que dificulta o acesso, especialmente para pessoas em situação de maior vulnerabilidade financeira”, destaca.
Há discussões sobre a inclusão da vacina no Sistema Único de Saúde (SUS), mas, segundo Daher, esse debate precisa ser feito com cautela. “Já se discutiu, por exemplo, ofertar gratuitamente apenas para pessoas acima de 80 anos, o que considero uma faixa etária muito elevada. Isso acabaria beneficiando um grupo pequeno e mais elitizado”, avalia.
Ele defende uma análise criteriosa que considere grupos de risco e faixas etárias mais amplas, além da capacidade de produção do imunizante. “É uma vacina produzida por um único laboratório no mundo, com um processo complexo. Quando falamos de Brasil, estamos falando de milhões de doses, o que exige planejamento”, conclui.
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