ru24.pro
World News in Portuguese
Январь
2026
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25
26
27
28
29
30
31

O romance Expedição Abissal, de Hélverton Baiano, é uma travessia humana

0

Álvaro Catelan

Especial para o Jornal Opção

No romance “Expedição Abissal”, Hélverton Baiano conduz o leitor a uma travessia que é, ao mesmo tempo, geográfica, humana e simbólica. A gruta fantástica de São Domingos, no nordeste goiano, não funciona apenas como cenário: ela se impõe como personagem central, um organismo vivo que engole, transforma e devolve — quando devolve — aqueles que ousam penetrar seus mistérios.

A expedição de doze professores, arqueólogos e antropólogos, planejada para durar quinze dias, converte-se numa experiência-limite de cinquenta dias de errância subterrânea. Entre os pesquisadores estavam os doutores Altair Sales Barbosa e a Mary Baiocchi. O desvio do tempo cronológico é um dos grandes achados do romance: à medida que os pesquisadores se perdem nos corredores da gruta, também se desfazem as certezas científicas, os métodos acadêmicos e a suposta superioridade racional diante do desconhecido. O saber erudito entra em colapso diante do abismo.

A narrativa se destaca pela força de sua linguagem. Como excelente poeta, Hélverton Baiano escreve com uma musicalidade poética rara na prosa contemporânea, fazendo do texto um corpo sonoro, ritmado, por vezes quase encantatório. Os neologismos surgem como necessidade expressiva, não como ornamento gratuito, ampliando o campo sensorial da leitura.

Hélverton Baiano: poeta, prosador, jornalista e crítico literário | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção

O uso de regionalismos e expressões do povo de Correntina, na Bahia, imprime autenticidade e densidade cultural ao romance, criando um contraste fértil entre a linguagem acadêmica dos pesquisadores e a sabedoria telúrica que atravessa a fala popular.  Em certos momentos   sentimos na linguagem o exercício da recriação roseana. O livro possui muitos momentos hilários quando o autor brinca com a própria sorte dos perdidos na imensidão e na solidão das cavernas, portanto a obra vai da tragédia, ao drama e à comédia.

Há, no livro, um diálogo constante entre luz e sombra, razão e mito, ciência e ancestralidade. A gruta é ventre, labirinto e espelho: nela, os personagens enfrentam não apenas a escuridão física, mas suas fragilidades morais, seus medos primitivos e suas contradições íntimas. O extravio espacial converte-se em desorientação existencial.

Quando finalmente descobrem a luz do dia, o retorno não é simples redenção. Os personagens emergem marcados, transformados, como se tivessem atravessado um rito de passagem irreversível. O leitor também não sai ileso: “Expedição Abissal” deixa uma sensação persistente de inquietação, como se algo ainda ecoasse nas galerias profundas da narrativa.

Trata-se, portanto, de um romance vigoroso, que alia invenção linguística, densidade simbólica e forte ancoragem regional. Hélverton Baiano demonstra pleno domínio da palavra e da atmosfera, oferecendo uma obra que desafia classificações fáceis e convida à leitura atenta, sensível e reflexiva. Um livro que se lê como quem desce — com cautela e assombro — aos subterrâneos da condição humana.

Álvaro Catelan é escritor e crítico literário.

O post O romance Expedição Abissal, de Hélverton Baiano, é uma travessia humana apareceu primeiro em Jornal Opção.