Regime militar espionou Chico Buarque em Campo Grande em 1974
Uma apresentação do cantor e compositor Chico Buarque de Holanda em Campo Grande esteve na mira do regime militar brasileiro e originou documento confidencial que circulou entre a alta cúpula do Exército nos anos 70. A apresentação aconteceu no dia 14 de setembro de 1974, no Teatro Glauce Rocha, e se tornou exemplo de como o regime acompanhava de perto artistas considerados subversivos. O show foi dividido em duas sessões, uma das 20h às 21h30 e outra das 22h às 23h30, e reuniu centenas de pessoas para ver Chico ao lado do conjunto MPB-4. Na época, os artistas já eram nomes consagrados da música popular brasileira. Chico Buarque havia voltado ao Brasil poucos anos antes, após mais de um ano de exílio na Europa por causa da pressão política e da repressão imposta pelo regime militar. A partir dessa volta, ele passou a ter sua obra e sua trajetória monitoradas pelas instituições de segurança e censura. O álbum Construção, de 1971, lançado pouco depois de seu retorno, trazia letras fortes e críticas implícitas à opressão e às contradições sociais do país, o que ampliou o olhar dos órgãos de repressão sobre o artista. Dentro desse contexto, o show em Campo Grande foi registrado em um documento oficial classificado como “Confidencial”, enviado ao gabinete do ministro do Exército no dia 29 de novembro de 1974, e distribuído entre órgãos de inteligência. Nele, um agente da 9ª Região Militar descreve os detalhes da apresentação de Chico e do MPB-4, inclusive, citando as reações da plateia. “A respeito da composição musical “Milagre”, ainda não gravada, Chico Buarque fez os seguintes comentários, antes de cantá-la. Na primeira sessão: “Esta música é de um compositor que já compôs muitas músicas, mas na hora de serem gravadas elas não o são” (neste momento houve risadas por parte da plateia, pois deu para se perceber claramente a alusão à censura para a não gravação). Continuando, Chico Buarque disse: “Mas agora vai, acho que vai sair”, diz trecho do documento de duas páginas. Mais adiante, o registro segue. “Na segunda sessão: desta vez Chico Buarque de Holanda foi claro, pois disse: “O compositor desta música já fez mais de 200 composições, todas as 200 censuradas” (também desta vez houve risadas por parte da plateia), “mas parece que agora ele vai sair no meu próximo LP em outubro” (ele pediu confirmação ao conjunto MPB/4 sobre a inclusão da música no LP, tendo os componentes do conjunto dado a confirmação). Somente nessas duas ocasiões é que CHICO BUARQUE falou diretamente aos espectadores”, descreve. A letra de “Milagre” fazia crítica clara às contradições econômicas do país, e também apontava a sagacidade com que artistas usavam metáforas para burlar a censura. “E o milagre brasileiro, quanto mais trabalho, menos vejo o meu dinheiro”, diz um trecho. A canção foi gravada em 1975 e, no registro, consta autoria de Julinho da Adelaide. Mais tarde se descobriria que este era um dos codinomes do próprio Chico Buarque para despistar a censura. Por fim, os militares reconheceram os artistas como “expoentes da música popular brasileira”, e não se sabe quais decisões foram tomadas a partir do relatório do agente que monitorou a apresentação do artista em Campo Grande.
