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Irritabilidade, dor e apatia: sinais de depressão em idosos seguem ignorados

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Dados analisados por pesquisadores da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina) e da UCL (University College London) indicam um descompasso entre sintomas relatados e diagnóstico médico de depressão na população idosa. Entre 15,9% dos idosos que afirmaram se sentir deprimidos, apenas 37,3% disseram ter recebido diagnóstico formal. Em termos simples, quatro em cada dez. As informações foram publicadas originalmente pela Folha de S.Paulo. A análise utilizou entrevistas da segunda onda do ELSI-Brasil (Estudo Longitudinal de Saúde e Envelhecimento no Brasil) com 6.872 pessoas com mais de 60 anos. O levantamento foi realizado entre 2019 e 2021 pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) em parceria com a Fiocruz-MG (Fundação Oswaldo Cruz). Apesar da diferença entre o autorrelato de tristeza, solidão ou perda de prazer e o diagnóstico médico, os pesquisadores alertam que os dados não permitem afirmar relação de causa e efeito. Para Jefferson Traebert, professor da Unisul e um dos autores do estudo, a principal contribuição está em chamar atenção para a autopercepção como possível sinal de risco. Segundo ele, esse alerta pode ajudar médicos da atenção primária e orientar políticas públicas. Na prática clínica, esse subdiagnóstico é frequente. O psiquiatra florense Marcos Estevão Moura, que atua em Campo Grande, afirma que os sinais da depressão em idosos costumam ser confundidos com características do envelhecimento. “Fadiga, dores generalizadas, distúrbios do sono e prejuízo de memória muitas vezes são atribuídos apenas à idade, quando podem indicar uma doença tratável”, explica. Segundo Marcos, a depressão na velhice nem sempre se manifesta como tristeza persistente. “O que aparece mais no idoso é a irritabilidade e a anedonia, que é a perda de prazer pela vida. A tristeza típica nem sempre está presente”, afirma. Ele acrescenta que sintomas físicos e alterações do sono acabam ganhando mais atenção do que o sofrimento emocional. Outro ponto destacado pelo psiquiatra é a dificuldade de reconhecimento do quadro, tanto pelo idoso quanto pela família. “Muitas vezes acham que a pessoa está ranzinza ou apática só por causa da idade. A família precisa estar atenta, porque isolamento, descuido com a aparência e a sensação de ser um peso são sinais importantes”, diz. Entre os idosos com diagnóstico confirmado, o estudo identificou fatores associados como gênero, escolaridade e estilo de vida. As mulheres apresentaram risco 2,23 vezes maior de desenvolver depressão. Baixa escolaridade e sedentarismo também apareceram como fatores relevantes. Um resultado que chamou atenção foi a maior prevalência entre idosos com até oito anos de estudo, em comparação aos não escolarizados. Os pesquisadores consideram o dado aparentemente contraditório à literatura e levantam a hipótese de frustração entre expectativas e oportunidades ao longo da vida. Para Traebert, esses fatores precisam ser observados mesmo quando não há diagnóstico formal, com atenção especial às mulheres e às pessoas com menor escolaridade. Marcos reforça que doenças crônicas comuns na velhice podem agravar o quadro. “Artrose, diabetes, hipertensão e outras doenças que causam dor acabam intensificando os sintomas depressivos”, afirma. Ele também alerta para quadros em que a depressão se confunde com demência. “Existe a pseudodemência, em que sintomas depressivos imitam um quadro demencial, mas são reversíveis com tratamento”, explica. O estudo também aponta que a situação conjugal não teve peso estatístico, o que surpreendeu os autores, já que o vínculo marital costuma ser visto como fator protetivo. Outro alerta é para a tendência de tratar tristeza e solidão como algo “normal” do envelhecimento, o que pode levar à negligência da saúde mental. A atenção primária do SUS (Sistema Único de Saúde) é apontada como espaço central para que idosos falem não apenas de dores físicas, mas também de sofrimento emocional. Os pesquisadores defendem a combinação do autorrelato com avaliações objetivas para melhorar o manejo da depressão nessa faixa etária. O estudo lembra ainda dados de 2017 que indicam que metade dos idosos com depressão não foi diagnosticada na atenção primária, em parte porque sintomas como fadiga, irritabilidade, alterações do sono e problemas de memória costumam ser confundidos com sinais do envelhecimento. Para Moura, preparar melhor a rede básica é fundamental. “Às vezes o idoso não reconhece o próprio sofrimento psíquico, mas a equipe de saúde precisa reconhecer. Esses sinais não são só físicos, são indicadores de sofrimento emocional”, conclui.