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Paradoxo patropi: esquerda defende ditadura de Cuba e condena ditadura dos militares

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Há um paradoxo do qual a esquerda brasileira — mesmo um moderado como Lula da Silva — não consegue se desvencilhar.

De um lado, condena corretamente a ditadura civil-militar — um período tenebroso de 21 anos — e a tentativa de golpe articulada pelo bolsonarismo.

Jair Bolsonaro e seu grupo — “filhos” dos generais Emilio Médici e Sylvio Frota (Augusto Heleno trabalhou no seu gabinete) — pensavam estabelecer uma ditadura, e cruenta, tanto que planejavam matar o presidente Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

De outro, apoia a ditadura de Cuba, que, há 67 anos, não permite eleições livres e democráticas. Milhões de cubanos moram em outros países, principalmente nos Estados Unidos, por discordarem da virulência do comunismo na ilha.

Fidel Castro e Che Guevara, políticos autoritários e brutais: Stálin e Lênin de Cuba? | Foto: Reprodução

Fala-se muito em embargo americano do norte contra Cuba. Mas, se o país tivesse recursos financeiros — como o Irã dos aiatolás —, o embargo poderia ser contornado? Por certo. O fato é que a ilha da dinastia Castro não tem dinheiro para comprar alimentos (e medicamentos) em volume suficiente para manter seu povo.

Cuba não é pobre porque existe embargo econômico gestado pelos Estados Unidos. A ilha é paupérrima porque o modo de produção comunista não conseguiu gerar crescimento em níveis satisfatórios. Em Cuba quase todos são pobres — exceto os membros da nomenklatura caribenha. Esta é a grande revolução: tornar todos pobres?

Lezama Lima e Cabrera Infante: perseguidos

O governo criado por Fidel Castro, com o apoio de seu irmão Raúl Castro — que sempre controlou as forças armadas com mão de ferro — e de Che Guevara (que nada tinha de terno), patrocinou uma repressão brutal contra políticos dissidentes, intelectuais, escritores e professores. (Entre os perseguidos atuais afigura-se Yoani Sánchez.)

Lezama Lima, prosador, poeta e crítico: o maior escritor cubano | Foto: Reprodução

Quem não recuou, para não ser preso e até ser assassinado, teve de sair do país — casos de Heberto Padilla, Armando Valadares, Severo Sarduy, Guillermo Cabrera Infante, Reinaldo Arenas e, entre outros, Raúl Rivero.

Os escritores Lezama Lima (prosador e poeta extraordinário — algo assim como o Carlos Drummond de Andrade ou o Guimarães Rosa de Cuba) e Virgilio Piñera foram “condenados” ao ostracismo por dois motivos.

Primeiro, por não apoiarem o totalitarismo do governo comunista. Por isso foram olimpicamente boicotados. Mas, imensamente talentosos, se destacaram em outros países. Lezama Lima era amigo de Julio Cortázar, que, mesmo favorável à ditadura dos Castros, contribuiu para valorizá-la na Europa.

Segundo, porque eram homossexuais — assim como Severo Sarduy (escritor extraordinário) e Reinaldo Arenas (autor de um livro espantoso, “Antes Que Anoiteça”, que vasculha o autoritarismo cubano no campo do comportamento). Ele denuncia a perseguição brutal aos homossexuais cubanos, que chegavam a ser presos em campos de concentração.

Heberto Padilla: escritor cubano perseguido pela ditadura comunista | Foto: Reprodução

Costumo sugerir que a verdadeira revolução cubana é factível só no campo da cultura — com José Martí, Lezama Lima (https://tinyurl.com/42dhz2s5), Virgilio Piñera, Alejo Carpentier (esplêndido), Severo Sarduy, Cabrera Infante, Heberto Padilla, Wendy Guerra (https://tinyurl.com/3w82afmx) e Teresa Cárdenas. O maior poeta é Lezama Lima, mas há outros muito bons (https://tinyurl.com/vruwpuzj). E há, claro, músicos e cantores extraordinários, como Rubén González, Bebo Valdés, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo, Compay Segundo e Pablo Milanés.

“Paradiso”, de Lezama Lima, é um romance livro tão extraordinário (conta com uma tradução de alto nível no Brasil, feita por Josely Vianna Baptista) quanto “Educação Sentimental”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Anna Kariênina”, “Em Busca do Tempo Perdido”, “Ulysses”, “A Montanha Mágica”, “O Som e a Fúria”, “Vidas Secas” e “Grande Sertão: Veredas”. Quem não leu ficará no purgatório e não irá para o Céu.

Com ou sem os EUA, cubanos exigem mudança

Os que defendem Cuba no Brasil se esquecem, propositadamente, que os cubanos querem mudança e exigem melhores condições de vida.

Donald Trump: derrubar a ditadura deveria ser missão dos cubanos, e não dos EUA | Foto: Reprodução

Para o brasileiro que faz turismo, e pode comer em bons restaurantes, nos quais os cubanos não comem, é quase tudo maravilhoso. O país, congelado no tempo, gera nostalgia. É como se a pessoa tivesse voltado no tempo e ainda estivesse vivendo entre as décadas de 1950 e 1960.

Só que os cubanos, a maioria, querem viver o aqui e agora — comendo e se vestindo melhor, com transporte público de qualidade e hospitais adequados (falta, por exemplo, medicamentos, como antibióticos, insulina e hipertensivos).

Os defensores de Cuba, como Chico Buarque e José Dirceu, certamente não querem morar lá. A Cuba dos turistas é magnífica — porque é provisória. Mas a Cuba permanente, a dos moradores, é ruim. Para todos, exceto para a elite comunista. Fidel Castro era dono até de iate.

Mesmo sendo uma ditadura, Cuba — os cubanos — não merece o boicote energético promovido pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Piorar a vida dos cubanos para aumentar a insatisfação com o governo é de uma crueldade ímpar. Trata-se de uma ação sádica. Não é uma política de Estado saudável. É uma política ideológica desumana.

Ouço de pessoas esclarecidas que a ajuda humanitária fortalece a ditadura cubana. Não penso assim. Tal apoio visa, isto sim, atender as necessidades imediatas dos cubanos — que precisam comer, vestir e tomar medicamentos (por exemplo, para diabetes e hipertensão).

O que critico não é a ajuda humanitária, que é justa e necessária. O que critico é o apoio político a uma ditadura que só piora a vida das pessoas.

Minha crítica não significa que defendo uma intervenção americana do norte em Cuba. Porque não defendo.

Os cubanos, e não os americanos do norte, devem lutar para derrubar o governo comunista. O que instalar na ilha? Basta um regime democrático, no estilo, por exemplo, da socialdemocracia europeia.

Transformar a ilha num imenso “bairro” dos Estados Unidos não é o melhor caminho. Porque, em tempos idos, o país era uma espécie de balneário estadunidense, com presença ostensiva da máfia. Era bom para muitos, sobretudo turistas, mas não para o povão.

O comunismo cubano e o tráfico de drogas

[https://tinyurl.com/mr35p537]

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