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O “chilling effect” e a erosão do pensamento nas ciências sociais

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Eu sempre penso que, quando algo nos incomoda na pesquisa, a crítica deve começar por nós mesmos. E, nas ciências sociais, a autocrítica ocupa um lugar central na tradição reflexiva. Porém, essa autocrítica não pode ignorar que não pensamos nem escrevemos no vazio: tudo o que fazemos enquanto pesquisadores é sempre para um público e para a sociedade de forma mais ampla. Talvez por isso seja preciso olhar também para o ambiente em que nossas ideias passam a circular e a ser recebidas, e é dessa inquietação que este texto surgiu. No meu caso, essa reflexão vem de um campo específico, o dos recursos naturais. Pesquisar nesse campo é lidar, inevitavelmente, com questões sensíveis e controversas. E, quando digo sensíveis, não falo apenas do ponto de vista socioambiental, mas também político, geopolítico, econômico, territorial e, por vezes, pessoal. Digo isso porque já ouvi, de colegas, coisas como “isso não dá para dizer” ou “melhor não escrever dessa forma”. Aos poucos, comecei a estranhar o fato de ter que ajustar o que escrevo, e até a minha imaginação científica, não por razões teóricas ou éticas, mas pelo que esperam que eu diga, ou para evitar problemas com x ou com y. Nessas condições, qualquer tipo de exposição pública pode rapidamente se transformar em rótulo. E, até certo ponto, talvez esse nem seja o maior problema, já que não temos controle sobre como seremos vistos e nomeados. Porém, para além dos rótulos, fui percebendo que essas sensibilidades deixam de se concentrar apenas nos locais, projetos ou artigos e passam a atravessar também quem pesquisa: seja pelo nível de envolvimento com suas pesquisas, algo esperado de quem vive o que estuda, seja pela alta politização do assunto. Esse deslocamento é gradual, difuso e muitas vezes difícil de nomear. O debate público mantém-se aceso, por vezes arrefece, as posições continuam a ser defendidas e a se transformar, mas instala-se um clima mais cinzento, em que passamos, enquanto pesquisadores, a antecipar possíveis leituras hostis ou enquadramentos morais prévios, porque tudo pode ser interpretado a partir de interesses divergentes. Nesse ambiente, argumentos deixam de ser avaliados prioritariamente por seus fundamentos empíricos ou analíticos e passam a ser classificados unicamente como posições interessadas. Ou seja, o que se diz a partir de pesquisas é, muitas vezes, reduzido ao que se supõe que o pesquisador representa na disputa. Nesse cenário, o esforço de “suspensão de valores”, feito por quem, nas ciências sociais, busca observar um fenômeno complexo, não como crença na neutralidade da ciência, mas como condição mínima para compreender a realidade, torna-se mais difícil de sustentar. Como lembrava a luso-brasileira Maria da Conceição Tavares, em um dos cortes que circulam pela internet, é preciso cuidado para que nossos fantasmas não atrapalhem a nossa objetividade. Mas, em contextos de alta polarização, os fantasmas parecem sempre prontos a ser projetados sobre o outro antes mesmo que o argumento possa ser escutado. Na América do Sul, pesquisar recursos naturais é um caminho recorrente. Somos países marcados por abundância de recursos naturais e por desigualdades profundas, o que ajuda – em parte – a explicar a vasta produção acadêmica dedicada a entender as razões, os limites e as possibilidades de superação desse modelo de desenvolvimento e de subdesenvolvimento. Nesse sentido, temos muito a dizer, e são raras as vezes em que alguém externo às nossas realidades consegue apreender plenamente os dilemas que nos atravessam, porque há uma experiência histórica que marca na pele o ser latino-americano, e nós sabemos bem disso. Nas ciências sociais, como não poderia deixar de ser, uma extensa literatura mostra como os recursos naturais se tornam pontos de inflexão para conflitos de poder, para a circulação de agendas transnacionais e, entre outras coisas, para formas variadas de intervenção. Muitas vezes, essas intervenções se apresentam como técnicas ou morais; outras vezes, como humanitárias, democráticas, anticorrupção ou ambientais. Nesse contexto, diferentes atores disputam sentidos, teorias, projetos e expectativas, por vezes com finalidades convergentes, por vezes claramente conflitantes. Com o tempo, vamos aprendendo a lidar com o desacordo como parte do próprio trabalho, o chamado “fogo amigo”. O Brasil, em particular, tem sido (infelizmente) um laboratório privilegiado dessas dinâmicas, como mostram os debates em torno das chamadas Jornadas de Junho de 2013, que, apesar de não terem tido em seu mote um debate sobre recursos naturais, trouxeram à tona uma imensidão de discussões, frequentemente relembradas como uma viragem de processos que escaparam às suas motivações iniciais: “não é por vinte centavos”. Um artigo de Fábio Palácio, publicado em 2023, dez anos depois das Jornadas de Junho, reconstitui esse processo, passando em revista as múltiplas bandeiras então levantadas. Como o próprio autor escreve: “Sob esse céu de lusco-fusco, ponteado de trevas e luzes, uma multidão tomou as ruas”. Uma multidão tomou as ruas, e nós, analistas, demoramos algum tempo para conseguir entender e explicar o que já estava socialmente posto naquele momento e o que foi socialmente “imposto”, de fora, mas também de dentro. Trago essa memória como parte de uma juventude que viveu aquele período em formação e que, a partir dali, passou a dedicar mais atenção à formação de movimentos, à atuação de organizações não governamentais, às pressões políticas e à circulação transnacional de agendas que muitas vezes chegam empacotados em receitas prontas e slogans pouco abertos ao questionamento. Naquele momento de 2013, muitas pessoas que foram às ruas movidas por insatisfações concretas viram, mais tarde, suas motivações serem reinterpretadas e enquadradas como uma espécie de “massa de manobra”. E esse percurso foi me mostrando que o universo das organizações e dos ativismos está longe de ser homogêneo ou binário. Mas o que se torna especialmente relevante aqui neste texto é que, quando essas disputas em torno da interpretação dos fatos, dos dados e dos interesses em jogo se intensificam, a própria produção de conhecimento passa a ser observada, questionada e, em certos casos, pressionada. Há exemplos recentes de pesquisadores que, ao tornarem públicos dados ou análises sensíveis, enfrentaram constrangimentos ou retaliações. Basta lembrar a exoneração de Ricardo Galvão da direção do Inpe, após a divulgação de dados sobre o desmatamento, ou o caso da geógrafa Larissa Bombardi, que relatou ameaças e acabou deixando o Brasil em função de seu trabalho sobre o uso de agrotóxicos. São situações-limite que despertam a nossa solidariedade. Porém, antes de se chegar a esses extremos, muita coisa já aconteceu: concessões foram feitas, silêncios se instalaram, permissões foram dadas e o conflito foi mudando de lugar. A minha inquietação é justamente esse deslocamento mais silencioso, de que falei no início do texto. Aos poucos, passamos a ajustar perguntas, tons e escolhas analíticas como forma de evitar desgastes que extrapolam a discussão de ideias: vamos suavizando arestas importantes, pintando um quadro bonito num mundo visivelmente feio, agindo como se ele não existisse e abafando suas contradições. A partir daí, passa-se a evitar o embate direto, a exposição, os custos emocionais, e o pensamento vai, pouco a pouco, se erodindo. Forma-se, assim, um espaço que favorece a autocontenção, e aquele modo de presença intelectual que discutia intensamente suas ideias, que travava polêmicas em público sem medo, a exemplo da própria Maria da Conceição Tavares, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro ou Celso Furtado, vai se rarefazendo, dando lugar a um empobrecimento do debate e da produção intelectual marcado apenas pela antecipação de alinhamentos e suspeições. Não pretendo oferecer conclusões sobre este tema, mas contribuir para a reflexão sobre as condições em que a pesquisa nas ciências sociais vem sendo realizada ao longo dos últimos anos, em um contexto no qual o chamado chilling effect, o efeito de arrefecimento produzido pela antecipação de possíveis constrangimentos, tem sido cada vez mais mencionado entre pesquisadores. (*) Elaine Santos, pós-doutora pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP