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“Quem tem um porquê suporta quase qualquer como”

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Abílio Wolney Aires Neto

O sentido, o sofrimento e a arquitetura interior do ser humano foi sempre um desafio para a trajetória das civilizações.

A célebre frase “Quem tem um porquê suporta quase qualquer como”, associada ao pensamento de Friedrich Nietzsche e posteriormente retomada e aprofundada por Viktor Frankl, expressa uma das intuições mais profundas sobre a condição humana: o sofrimento torna-se suportável quando a vida possui um sentido.

A história humana, tanto no plano individual quanto coletivo, mostra que o homem não vive apenas de conforto material ou de estabilidade exterior. Ele vive, sobretudo, de significado. Quando o sentido existe, o caminho — por mais árduo que seja — torna-se possível. Quando o sentido desaparece, até a existência mais confortável pode se tornar insuportável.

Essa ideia encontra ressonância em diversas correntes do pensamento filosófico, psicológico e espiritual.

Viktor Frankl desenvolveu essa reflexão a partir da própria experiência extrema. Sobrevivente dos campos de concentração nazistas durante o Holocausto, Frankl observou que muitos prisioneiros sucumbiam não apenas pela fome ou pela violência, mas pela perda total de sentido.

Em sua obra clássica Em Busca de Sentido, ele descreve que aqueles que conseguiam resistir psicologicamente eram, em geral, os que mantinham algum “porquê” para viver: reencontrar a família, concluir um trabalho intelectual, cumprir uma missão espiritual ou sobreviver para testemunhar o que haviam visto.

Frankl concluiu que a motivação fundamental do ser humano não é o prazer — como pensava Sigmund Freud — nem o poder — como sugeria Friedrich Nietzsche em outro contexto — mas o sentido. Assim nasceu a logoterapia, uma psicologia centrada na busca de significado.

A frase torna-se ainda mais clara quando observada na vida cotidiana. Uma mãe que acorda antes do amanhecer, enfrenta transporte público lotado e trabalha o dia inteiro pode suportar um cotidiano exaustivo porque possui um porquê claro: cuidar dos filhos e oferecer-lhes um futuro melhor. O esforço não desaparece, mas torna-se significativo.

O mesmo ocorre com o estudante que atravessa anos difíceis preparando-se para uma profissão. Noites mal dormidas, pressão emocional e dificuldades financeiras tornam-se suportáveis porque existe um projeto de vida. O “como” — os sacrifícios — é suportado pelo “porquê” — a vocação.

Também o doente que enfrenta tratamentos dolorosos muitas vezes encontra forças na esperança de voltar a conviver com a família ou realizar algum sonho ainda não cumprido. Em muitos hospitais, médicos observam que pacientes que mantêm objetivos claros e vínculos afetivos fortes resistem melhor às adversidades da enfermidade.

Mesmo o pesquisador, o artista ou o escritor atravessa períodos de frustração e isolamento. Ainda assim, persevera, porque está movido por uma convicção interior de que aquilo que produz possui valor e significado.

A psicologia de Carl Gustav Jung oferece outra perspectiva complementar. Jung sustentava que o ser humano não é apenas um indivíduo isolado, mas carrega em si estruturas psíquicas universais que chamou de inconsciente coletivo — um patrimônio simbólico da humanidade acumulado ao longo dos séculos.

Dentro dessa estrutura surge o conceito central de Self, o núcleo organizador da personalidade, que orienta o processo de individuação — a realização plena daquilo que a pessoa está destinada a ser. Quando o indivíduo encontra seu caminho interior e harmoniza sua consciência com esse centro profundo da psique, ele passa a perceber um sentido mais amplo para sua existência.

O “porquê” de viver, portanto, não surge apenas de metas externas, mas também de uma vocação interior que conecta o indivíduo à experiência humana universal. Nesse sentido, a busca de significado é simultaneamente psicológica, filosófica e espiritual.

Alguns pensadores materialistas ofereceram visões diferentes sobre o sentido da vida. Karl Marx interpretou muitas motivações humanas a partir das condições materiais e das estruturas econômicas. Para ele, grande parte do sofrimento humano decorre da alienação produzida pelas relações sociais e produtivas.

Já Albert Camus desenvolveu a ideia do absurdo da existência, sustentando que o universo não oferece um significado objetivo para a vida humana. Ainda assim, Camus reconhecia que o homem pode afirmar a própria dignidade mesmo diante do absurdo, persistindo em viver e agir com consciência e coragem. De certo modo, essa postura também confirma que o ser humano necessita atribuir valor e direção à própria existência.

Na tradição filosófica cristã, o sentido da vida encontra fundamento na relação entre o ser humano e o transcendente. Santo Agostinho afirmou que o coração humano permanece inquieto enquanto não encontra seu repouso em Deus. Já São Tomás de Aquino sustentava que o ser humano tende naturalmente ao bem supremo, que é o fundamento último da realidade.

No século XX, o teólogo protestante Paul Tillich descreveu essa busca fundamental como a “preocupação última”, isto é, aquilo que dá direção e significado à vida humana. Sem essa orientação profunda, a existência corre o risco de dissolver-se na superficialidade.

A sociedade contemporânea, marcada pela velocidade tecnológica e pela multiplicidade de estímulos, frequentemente oferece muitos meios, mas poucos fins. Possuímos abundância de informação, mas escassez de sabedoria. A crise moderna não é apenas econômica ou política; ela é também existencial, pois muitos indivíduos perderam a clareza sobre o sentido da própria vida.

Quando o “porquê” desaparece, surgem o tédio profundo, a ansiedade e o vazio interior. Quando o sentido reaparece, mesmo as dificuldades mais duras podem ser integradas ao caminho de crescimento humano.

A experiência humana sugere que o sentido da vida costuma emergir de três fontes principais: o amor que nos vincula a outras pessoas, a missão que orienta nosso trabalho ou serviço e a dimensão espiritual que conecta a existência a valores mais elevados.

Nesse horizonte, recorda-se uma reflexão atribuída a Joanna de Ângelis:

“O ser humano é herdeiro de si mesmo e construtor do próprio destino.
Somente o autoconhecimento liberta das sombras e conduz à plenitude.”

Essa afirmação significa que cada pessoa traz consigo as consequências de suas escolhas, hábitos e pensamentos acumulados ao longo da vida. Ao mesmo tempo, possui a liberdade de transformar a própria trajetória por meio da consciência e da responsabilidade interior.

Um exemplo concreto pode ser visto na vida de alguém que cresce em ambiente marcado pela violência ou pela pobreza. Muitos indivíduos, ao reproduzirem os mesmos padrões que receberam, perpetuam ciclos de sofrimento. Entretanto, quando alguém começa a refletir sobre si mesmo — reconhecendo suas fraquezas, emoções e tendências — inicia um processo de autoconhecimento que lhe permite modificar suas decisões. Um jovem que compreende os efeitos destrutivos da violência pode escolher o estudo, o trabalho ou o serviço comunitário como novos caminhos. Nesse momento, ele deixa de ser apenas produto do passado e torna-se autor de sua própria história.

O autoconhecimento ilumina as “sombras” interiores — medos, impulsos, ressentimentos — e permite que o indivíduo reorganize sua vida de forma mais consciente. Esse processo está em profunda consonância com a ideia junguiana de integração da personalidade e com a visão de Frankl sobre a liberdade humana de escolher o sentido de sua existência.

Assim, a frase de Nietzsche, aprofundada por Viktor Frankl e dialogando com tradições filosóficas, psicológicas e espirituais, revela uma verdade essencial: o homem pode suportar quase qualquer adversidade quando encontra um sentido para viver.

Quando o indivíduo descobre seu porquê, o sofrimento deixa de ser apenas peso e passa a ser caminho. E então, mesmo diante das inevitáveis dificuldades da existência, o ser humano encontra força para continuar, crescer e transformar a própria vida.

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