Entre fraldas e doações, idosa de 80 anos luta contra o abandono dos filhos
Sozinha em uma cama montada na sala de casa, no Jardim Centenário, em Campo Grande, uma idosa de 80 anos enfrenta dias que parecem não passar. Sem poder levantar, com a perna imobilizada e dependente de doações, ela diz sobreviver graças à ajuda de cinco amigos. “Eu estou fedendo, minha cama está molhada porque eu não consigo me trocar”, resume, sem esconder o constrangimento. Esse caso foi sugerido por leitor que enviou mensagem pelo canal Direto das Ruas. A idosa, que pediu para não ter o nome divulgado, sofreu uma queda em fevereiro. Sentiu dores por dias, mas só pediu socorro quando a perna inchou. Foi atendida pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e levada à Santa Casa, onde descobriu que havia fraturado o fêmur. Ela ficou internada por algumas semanas até conseguir realizar a cirurgia. Todo esse tempo, segundo conta, permaneceu sem acompanhante. Há 15 dias, está de volta em casa, mas acamada. O médico determinou que ela precisa ficar três meses sem colocar o pé no chão. Desde então, depende exclusivamente da solidariedade. Ela conta que tem um filho que mora em Portugal e outra filha em Sidrolândia. Mas nenhum dos dois atende aos apelos da idosa. Na sala onde a cama foi improvisada, há um cooler com água, frutas levadas por amigos e um pacote de fraldas já no fim. “Tudo aqui é doação”, afirma. Cinco amigos se revezam para cuidar da idosa. Uma das amigas, de 58 anos, diarista, mora perto da UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Bairro Universitário, a alguns quilômetros dali, e é uma das que mais acompanham a rotina da idosa. É ela quem atende, sempre que pode, as ligações feitas de madrugada. “Ela liga de noite, liga pedindo socorro. Mas não é toda hora que eu consigo atender. A gente também trabalha, temos nossos horários”, conta. Segundo a diarista, há dias em que a idosa fica suja porque ninguém consegue chegar a tempo de socorrê-la. “Tem vezes que de um dia para o outro fica defecada, porque não tem ninguém aqui. Se a gente não vem, ela não come". Desde ontem, a idosa estava sem se alimentar até a visita da amiga, que levou uma torta para o almoço. “Ela está comendo e só não morreu ou pegou uma infecção porque os amigos estão sendo solidários. Estamos comprando comida para ela, a gente gasta com Uber, gasolina, já estourou pneu do carro. É um tempo que estamos separando para ela”, relata. Entre os amigos, há uma enfermeira que, quando consegue ir até a casa, avalia os curativos. A situação já foi denunciada. Três equipes da assistência social passaram pela residência e, segundo os amigos, a polícia foi acionada quatro vezes para investigar o abandono. Ainda assim, o grupo de amigos afirma que nada mudou. A idosa relata que, quando a filha esteve na casa, houve discussão. “Ela falou muita coisa, falou horrores”, diz. Em meio à mágoa, lembra do passado. “Eu fui lavadeira, passadeira, faxineira, babá e cozinheira para dar a faculdade pra ela. E hoje eu não presto". A filha teria sugerido que a mãe fosse para um asilo. A princípio, a idosa recusou. Disse que tem a própria casa e queria permanecer ali. Mas, ao perceber o esforço e o desgaste dos amigos, voltou atrás. “Depois de ver todo o trabalho que eles estão tendo, eu liguei e falei que aceito ir para o asilo”, conta. Até agora, segundo ela e os amigos, não houve retorno e a filha não atende mais as ligações. Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.
