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Do Recôncavo ao mundo: a consagração de Caetano Veloso e Maria Bethânia no Grammy

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Há momentos em que a música ultrapassa o território do entretenimento e se instala no campo da memória coletiva. A premiação de Caetano Veloso e Maria Bethânia no último domingo, 1º de fevereiro, como vencedores do prêmio de Melhor Álbum de Música Global, é um desses instantes raros em que trajetória, afetividade e história se encontram.

O reconhecimento, concedido no âmbito do Grammy Awards, não celebra apenas um álbum ao vivo. Celebra uma herança cultural que atravessa mais de seis décadas da música brasileira, e que, ainda hoje, se renova com força estética e simbólica.

Para Maria Bethânia, o prêmio carrega um sabor inaugural: é seu primeiro Grammy, apesar de uma carreira reverenciada, marcada por interpretações que fundem poesia, teatro e música em uma experiência quase ritualística. Para Caetano Veloso, trata-se da terceira estatueta, somando-se às conquistas anteriores com o álbum Livro e como produtor de João Voz e Violão, de João Gilberto.

Mas mais do que números, o que se consagra é uma história de cumplicidade artística.

O disco vencedor registra a turnê histórica realizada entre 2024 e 2025, um reencontro público dos irmãos de Santo Amaro da Purificação com o Brasil. O projeto dialoga diretamente com o célebre álbum ao vivo de 1978, quando Caetano e Bethânia já haviam transformado o palco em espaço de comunhão artística.

O repertório atravessa diferentes fases da música brasileira: clássicos autorais como “Alegria, Alegria”, “O Quereres”, “Cajuína” e “Reconvexo”, além de canções de compositores fundamentais como Gilberto Gil, Raul Seixas e Roberto Carlos. Um dos momentos mais comoventes do álbum é a homenagem à eterna Gal Costa, com releituras de “Baby” e “Vaca Profana”, canções que ajudaram a formar a estética da Tropicália.

Ao incluir ainda uma versão inédita de “Fé”, de Iza, os irmãos mostram que tradição e contemporaneidade não se excluem: dialogam.

A escolha de Melhor Álbum de Música Global é, por natureza, uma categoria reservada a encontros culturais. Nesta edição, Caetano e Bethânia superaram artistas de enorme projeção internacional, como Burna Boy, Youssou N’Dour, Anoushka Shankar e o grupo Shakti.

O que se impôs, porém, não foi uma estética pasteurizada para o mercado internacional. Pelo contrário: venceu um projeto profundamente brasileiro, em língua portuguesa, enraizado no cancioneiro popular, na poesia e na memória afetiva.

Esse é talvez o ponto mais revelador da premiação:  o mundo reconhece a força de uma música que não precisa abdicar de sua identidade para ser universal.

Do ponto de vista musicológico, o encontro de Caetano e Bethânia ao vivo é um exercício sofisticado de narrativa musical. As escolhas de repertório constroem arcos emocionais; os arranjos equilibram delicadeza e grandiosidade; e as interpretações apostam no poder do silêncio, da palavra e da respiração.

Bethânia, com sua dicção quase teatral, transforma cada canção em poema falado. Caetano, com sua inteligência melódica e harmônica, costura sentidos, memórias e referências culturais. O resultado não é apenas um concerto: é uma verdadeira dramaturgia sonora.

É impossível ignorar o simbolismo da primeira vitória de Maria Bethânia em uma premiação internacional dessa magnitude. Em um mercado historicamente marcado por desigualdades de gênero e por uma visão muitas vezes limitada da música latino-americana, o Grammy representa uma espécie de reconhecimento tardio, mas profundamente significativo.

Bethânia sempre foi gigante, agora o mundo institucional da música global apenas confirmou aquilo que o Brasil sabe há décadas.

Há algo de poético no percurso desses dois artistas. Filhos de Dona Canô, formados em uma pequena cidade do Recôncavo Baiano, tornaram-se protagonistas de uma das revoluções estéticas mais importantes da música brasileira no século XX e seguem, no século XXI, emocionando plateias e conquistando reconhecimento internacional.

A vitória no Grammy não encerra uma história. Pelo contrário: mostra que certas trajetórias são tão potentes que atravessam gerações.

Caetano e Bethânia não representam apenas a música brasileira no mundo. Eles representam a capacidade da arte de transformar memória em presente, tradição em criação viva.

E talvez seja justamente isso que mais encanta: em tempos de consumo rápido e descartável, dois artistas que apostam na profundidade, na palavra e na emoção,  e que, ainda assim, conquistam o planeta.

A música brasileira, mais uma vez, falou alto. E o mundo escutou.         

Vamos ouvir Caetano Veloso & Maria Bethânia interpretando  “Baby”  e  “Vaca Profana”, ao vivo na Arena Fonte Nova, em salvador homenageando Gal Costa.

Observecomo a transição entre as duas canções cria uma atmosfera de memória e reverência, sem interrupções bruscas. A economia de gestos vocais: Caetano e Bethânia cantam com delicadeza, deixando que a emoção fale mais alto que o virtuosismo. Fique atento ao  silêncio da plateia em momentos-chave,  parte fundamental da expressividade do ao vivo e a  forma como “Baby”, símbolo da Tropicália, se transforma em canto quase íntimo, enquanto “Vaca Profana” ganha caráter ritualístico.  O diálogo entre nostalgia e presente, transformando a homenagem em experiência viva, não apenas lembrança.

Nesta homenagem, a ausência de Gal Costa se transforma em presença musical, prova de que grandes artistas continuam vivendo na voz daqueles que com eles caminharam.

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O post Do Recôncavo ao mundo: a consagração de Caetano Veloso e Maria Bethânia no Grammy apareceu primeiro em Jornal Opção.