A Capela, dona Antônia e o farrista José
Fernando Cupertino
José havia chegado ao Rio de Janeiro há dois anos, para estudar na Faculdade Nacional de Medicina, na Praia Vermelha.
Vindo do interior de Goiás, arrumou alojamento numa pensão situada na Rua Santa Luzia, graças às indicações de um antigo amigo de seus pais que ali vivera por uns tempos: a Pensão Flor do Minho, mais conhecida como “a pensão da Dona Antônia “, uma portuguesa já de idade que ali se estabelecera há uns 20 anos, na virada do século XIX, quando chegou de Portugal com o marido. Este falecera alguns anos mais tarde, e ela continuou à frente do negócio. Não tiveram filhos e, talvez por isso, tratava todos os hóspedes, sobretudo os muitos estudantes que ali moravam, com um desvelo maternal.
— José, ó meu rapaz, tome tento! Isso de ficar na esbórnia quase todos os dias dará cabo de si! Estás aqui para fazer os estudos e não para vadiar. Tem dó da tua mãe, viúva como eu, que está a comer o pão que o diabo amassou com o rabo para manter-te aqui…
Mas que nada! José tomara gosto pelas noitadas animadas numa gafieira da Rua da Carioca, para os lados do Valongo, que se chamava “A Capela”. Ali passava quase todas as noites na bebida, no baralho e na mulherada, quando as cartas lhe sorriam.
Só não atrasava o pagamento da pensão porque a mãe enviava diretamente à Dona Antônia, todos os meses, por vale postal. Mas, de resto, vivia a pedir dinheiro emprestado aos colegas mais abonados, e a fazer um crochê dos diabos, ao usar um novo empréstimo para pagar o anterior e assim sucessivamente, de forma que a coisa se assemelhava a um moto perpetuo.
Um belo dia, ao entrar na pensão bem de manhãzinha, vindo de mais uma noitada n’A Capela, deu de testa com a proprietária, no balcão à entrada.
— Ó José, tu não te emendas, não é verdade? A chegar a esta hora da noitada! E a tresandar a vinho e a perfume barato de mulher…
Este deu de ombros e já tomava o rumo do quarto no andar de cima, quando ela lhe disse:
— Vem cá. Recebi uma carta da tua mãe. Como é que pode? Escrevestes a ela a dar notícias e a dizer que és muito religioso e que, praticamente todas as noites, vais à capela?… Isso brada aos céus! Como é que podes mentir desse jeito?…
— Uai, Dona Antônia, não é mentira nenhuma. Vou ou não vou à Capela quase todas as noites?
— Bem, que vais, vais. Isso lá é, mas ela quer saber, na carta que me mandou, se isso é mesmo verdade. O que hei de dizer, minha Nossa Senhora de Fátima?…
— Não há nada de mais. Vou mesmo. E a senhora há de me ajudar. Responda a ela dizendo que é verdade e pronto. Acabou-se a estória.
— Mas, pá… isso não é verdade por inteiro…
— Claro que é! Deixe ver a carta… sim, aqui está: “é mesmo verdade que o meu José vai à capela quase todas as noites?” Não é isso?
— Que é, lá isso é…
— Então, Dona Antônia, não há dúvida. É só responder dizendo que é mesmo verdade.
Dona Antônia, religiosa como era e incapaz de mentir, respondeu à carta sem, entretanto, tocar no assunto. Falou de outras coisas: a política; a carestia; as dores da viuvez e outras platitudes do gênero.
José, por sua vez, que já vinha rareando na frequência de notícias que dava à mãe, tratou de espaçar um pouco mais as atividades da boemia, talvez com a consciência a pesar-lhe um pouco. Mas esse propósito parece não ter sido assim tão firme e consistente. Pouco tempo depois, regressou aos velhos e conhecidos hábitos.
Passados uns meses, chega à pensão a mãe do José, que havia arrumado uns cobres com os parentes e foi bater na Capital, incomodada que estava com o prolongado silêncio do filho. As cartas haviam minguado e, inclusive, das duas últimas, nem sequer resposta tivera.
— Pode ser uma doença… vai que ele não quer me incomodar e nem vai deixar que Dona Antônia me diga qualquer coisa que me preocupe, pensou a mãe.
Resultado: decidiu ir lá ver o que estava acontecendo.
— Bom dia. A senhora deve ser a Dona Antônia, não é mesmo? Eu sou a Ana, mãe do José de Souza.
— Mas que surpresa! Sim, senhora. Sou eu mesma a Antônia. Seja muito bem-vinda! Mas eu não sabia que vinhas ao Rio de Janeiro. Não disseste nada na última cartinha que me mandaste…
— É que fiquei muito incomodada com a falta de notícias do meu filho. Ele está bem? Há tempos não me escreve… sequer respondeu às minhas últimas cartas.
— Sim, o menino José está muito bem, sim, senhora. Isso há de ser culpa dos correios, que não valem grande coisa. Com certeza extraviaram a correspondência, completou, tratando logo de livrar a cara daquele por quem tinha maternal afeição…
— Ele está no quarto?
— Não, senhora. Só deve chegar mais tarde. Mas vou subir a mala e a senhora ficará com ele no quarto. Mando pôr lá mais uma cama para si.
— Ele me disse que vai sempre à capela… quem sabe não podemos fazer-lhe uma surpresa e lá irmos ter hoje à noitinha e ficar à sua espera? Não sei onde é, mas se a senhora me indicar, ou puder ir comigo, ficaria muito agradecida…
— Ai, meu Jesus! Ai, meu Jesus — disse Dona Antônia para si mesma. Como é que vou me safar desta?
Decidiu-se por nada dizer, mas, sim, deixar que a mãe descobrisse a coisa por seus próprios olhos.
— Veja lá: a senhora descanse da viagem e pelas sete da noite lá iremos nós duas. A senhora há de conhecer a capela e pregar-lhe uma boa surpresa…
À hora combinada, saíram rumo à rua da Carioca, que não ficava distante. Caía uma chuvinha fina, daquelas de molhar bobos. Por isso, municiaram-se, previdentemente, de dois bons guarda-chuvas que havia ao pé da chapeleira, à entrada da pensão.
Ao chegarem à esquina da rua da Carioca, Dona Antônia, aflita, sem saber bem se havia tomado a decisão correta, deteve-se e, apontando o letreiro da gafieira, disse-lhe:
— Don’Ana, é aquela ali a capela que frequenta o José quase todas as noites…
Ela olhou para aquilo, entre assombrada e decepcionada:
— Mas, Dona Antônia, então é essa a capela que frequenta meu menino quase todas as noites?
— Ela mesma, Don’Ana. Não tive coragem de dizer por carta. Tive receio de que a senhora pudesse ter algum siricutico com a notícia…
— Pois vamos já lá dentro encontrar esse malandro!
— Pense bem, Don’Ana… acho que não convém entrar-se num sítio assim que não tem lá muito boa fama. Não é ambiente para senhoras de respeito.
— Se a senhora não vai, eu vou, disse resoluta, já marchando para a casa noturna do outro lado da rua…
— Pois se a Don’Ana vai, eu também vou.
E lá se foram as duas, de braços dados, marchando como soldados em parada de 7 de setembro.
Lá dentro, a coisa estava animada. A orquestra tocava um maxixe e a rapaziada rodopiava no salão com as moças de “de vida fácil” — como se houvesse alguma facilidade na vida das coitadas…
Numa mesa de canto, no carteado, estava o José, com um monte de notas de mil-réis à sua frente, indicando que, pelo menos até então, estava a ganhar algum dinheiro. Sentada em seu colo, uma moça com um vestido bem decotado, levava à boca uma piteira e soltava baforadas de fumaça enquanto enroscava-se no seu pescoço, de vez em quando.
— Joséééé!!! O grito ecoou tão fortemente que encobriu o som da pequena orquestra do cabaré, que parou abruptamente de tocar.
— Então é aqui que o senhor vem rezar quase todas as noites, não é? Sacripanta!!! E eu, enquanto isso, costurando e fazendo doces para vender, de modo a manter você aqui para os estudos!!!…
— Minha mãe, o que a senhora está fazendo aqui? A sua bênção, disse logo levantando-se da cadeira e fazendo com que a moça quase caísse ao chão.
— Bênção coisa nenhuma, seu salafrário! Você merece é porrete! E dizendo isso, deitou-lhe golpes de guarda-chuva na cabeça, nos ombros, enfim, onde pegassem…
Ele só teve tempo de juntar de uma vez o dinheiro da mesa e enfiar tudo aquilo no bolso, enquanto tentava esquivar-se das guardachuvadas desferidas pela mãe.
— Dona Antônia, me ajude aqui. Desça o pau na cabeça desse malandro! Fazer isso com u’a mãe viúva e pobre!
Dona Antônia não se fez de rogada e juntou-se àquela pobre mãe enganada para aplicação do merecido corretivo. Dali saíram porta afora, mantendo sempre o José debaixo de pau e ouvindo os apupos e risadas dos fregueses da gafieira.
Encerrou-se, assim, para José, a vida de estudante no Rio de Janeiro. No dia seguinte, pegou o trem de volta para Goiás, acompanhado da mãe. Parece que virou comerciante…
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.
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