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Trilogia Santo Guerreiro, de Eduardo Spohr, traz a fascinante narrativa sobre a vida de São Jorge

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Mariza Santana

São Jorge da Capadócia ou São Jorge de Lida, segundo a tradição cristã, foi um soldado romano que atuou no exército do imperador Dioclesiano e se tornou mártir por não renegar sua fé.

É é hoje um dos santos mais venerados das igrejas Católica, Ortodoxa e Anglicana. Além de padroeiro de diversas partes do mundo, como Inglaterra, Geórgia e Lituânia. Também é cultuado em Portugal, sendo que os portugueses trouxeram essa devoção para o Brasil.

No Rio de Janeiro, São Jorge possui uma multidão de fiéis, assim como em outras regiões do Brasil. Seu ícone mais conhecido é de um guerreiro montado em um cavalo branco derrotando um dragão.

Escrever um romance histórico sobre uma figura religiosa tão peculiar e venerada em vários pontos do planeta representa, de fato, uma tarefa hercúlea (desculpe usar uma figura mitológica para me referir ao santo guerreiro cristão).

Entretanto, o escritor e jornalista brasileiro Eduardo Spohr se incumbiu do desafio com mestria. A trilogia “Santo Guerreiro”, composta pelos livros “Roma Invicta”, “Ventos do Norte” e “O Império do Leste”, é simplesmente sensacional, principalmente para os leitores amantes de ficção histórica.

Ao todo, são mais de 1.500 páginas, resultado de um árduo processo de pesquisa e seis anos dedicados ao projeto literário, como informa o autor na nota incluída ao final do último livro da trilogia. Este gênero é realmente um grande desafio, pois costuma reunir personagens históricas e personagens fictícios, dentro de um contexto documentado, mas que propicia ao escritor dar asas à imaginação, por meio de episódios e diálogos que precisam ser verossímeis.

Um dos ícones do romance histórico mundial, o escritor britânico Ken Follett faz isso com propriedade.  Sphor teve de se superar.  Afinal, a despeito da grande devoção a São Jorge, ainda pairam dúvidas a respeito de da existência histórica do mito religioso.

Eduardo Spohr: autor de uma excelente trilogia sobre São Jorge | Foto: Divulgação

Primeiro livro: Roma Invicta

No primeiro livro de “Santo Guerreiro”, o leitor acompanha a vida dos pais de Giorgio Graco (este é o nome romano do protagonista), fortemente influenciada pelas intrigas políticas do Império Romano.

Com a morte do pai em batalha na Germânia, defendendo uma das fronteiras dos domínios de Roma, e o assassinato da mãe, o menino Giorgio é obrigado a fugir de sua Lida natal, na Palestina, acompanhado apenas do escravo pedagogo Strabo.

Depois de dificuldades, muitas peripécias e os primeiros contatos com comunidades cristãs, o adolescente Giorgio vai para a Escola dos Cavaleiros Romanos, apadrinhado por Diocleciano, local onde conhece Constantino, o futuro imperador romano que adotou o cristianismo como religião oficial e mudou os rumos da seita criada por Jesus Cristo na Palestina séculos atrás.

Segundo livro: Ventos do Norte

No segundo livro, “Ventos do Norte”, ainda um jovem imaturo, Giorgio é nomeado líder da Fortaleza de Castra Vetera, às margens do Rio Reno, na fronteira norte do Império Romano, onde comanda uma vitória expressiva contra os francos, um dos povos bárbaros mais temidos na época. Pela façanha, ele é sagrado um dos palatinos (soldados da guarda particular) de Dioclesiano e recebe do augusto missões especiais difíceis que o levam ao Egito e à Armênia.

Terceiro livro: O Império do Leste

A honra recebida por Giorgio, de servir diretamente o augusto, seria sua ruína, aliada aos princípios de justiça e misericórdia que cultiva, valores mais cristãos do que pagãos. O terceiro e último livro da saga, “O Império do Leste”, detalha o acirramento das intrigas políticas entre os quatro tetrarcas que dirigiam o Império Romano (Maximiano, Constâncio Cloro, Galério e Dioclesiano) na luta pelo poder, em um momento no qual que o líder maior já se encontra idoso e fragilizado. Em mais um período de perseguição sanguinária aos cristãos, Giorgio se vê preso em uma trama macabra criada por seus inimigos, na qual ele é o instrumento para fragilizar Dioclesiano.

Na elaboração do romance histórico, Eduardo utiliza um recurso literário interessante. No início, quem escreve a história de Giorgio é Helena, a mãe do futuro imperador Constantino. Ela envia a obra em tomos para a apreciação e crítica do bispo Eusébio, seu parceiro nesse trabalho. No final, com a morte da futura santa Helena, o bispo prossegue com a redação da saga do guerreiro romano, com base nas anotações da mãe do augusto, e envia os tomos para a apreciação de Constantino, que responde por meio de cartas com suas observações sobre os eventos citados.

Ler a trilogia “Santo Guerreiro” é como se transportar para o princípio do quarto século depois de Cristo, um período de grandes mudanças históricas, onde os deuses pagãos vão perdendo a força, em detrimento da ascensão da religião cristã. Esta, por sua vez, que teve início com adeptos entre as camadas mais humildes da população, começa a conquistar os soldados, funcionários públicos e nobres, arrebatando corações e mentes no interior do tecido romano.

O próprio Giorgio, que incialmente dizia venerar Marte, o deus romano da guerra, e Mitra, o patrono dos soldados, vai aos poucos sendo seduzido pela ideologia cristã, que já tinha em Helena uma de suas fiéis mais importantes. Os romances trazem mapas do mundo romano antigo, cita cidades romanas, como Antioquia (hoje Antakya, na Turquia), ou Salena, nas proximidades da atual Split, na Croácia, onde Diocleciano nasceu e construiu sua fortaleza-palácio. Nicomédia é outra cidade-Estado romana citada, que hoje é Ismit, na Turquia. Roma é descrita como um lugar já em decadência, perigoso para seus moradores, tomada por uma turba furiosa e senadores corruptos.

Uma viagem no tempo

“Santo Guerreiro” é uma verdadeira viagem no tempo, para a época em que o Império Romano já dava sinais de declínio. Afinal, nenhum império é eterno, podem durar mais de mil anos, como foi o domínio de Roma, do Ocidente ao Oriente.

Mas os rumos da civilização humana são assim, feitos de avanços e recuos. Por isso, considero a história da trilogia tão interessante. Creio que seu material literário é digno de uma adaptação para as telas da TV, na versão de uma série histórica. Eu assistiria com o mesmo entusiasmo que li os livros, que me inspiraram e fizeram viajar nos acontecimentos do período tardio do Império Romano. Em sua nota final, o autor deixa implícito que o próximo personagem a ganhar seu romance possa ser Constantino. Espero essa nova obra ansiosamente.

Eduardo Sphor é natural do Rio de Janeiro e tem 49 anos de idade. Filho de um piloto de avião e de uma comissária de bordo, teve a oportunidade de viajar o mundo, conhecendo culturas e povos diferentes.

Dessas experiências surgiu o fascínio pela literatura e pela história. Formou-se em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e trabalhou inicialmente na publicidade, retornando depois à atividade de jornalista. Seu primeiro livro publicado foi “A Batalha do Apocalipse”, em 2007.

O primeiro livro da trilogia “Santo Guerreiro” foi publicado em 2020, o segundo em 2022, e o terceiro em 2025.

Mariza Santana é jornalista e crítica literária.

[Email: marizassantana@gmail.com]

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