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Tayayá Resort, onde a excelência se hospeda

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Ycarim Melgaço

Professor e escritor, autor de “História das Viagens e do Turismo” (entre outros). Instagram: @ycarim

O Brasil anda descobrindo um novo ponto turístico, bem diferente das praias do Nordeste ou dos parques da Flórida. O destino da vez atende por Tayayá Resort e fica em Ribeirão Claro, interior do Paraná, às margens da represa de Chavantes. 

Não é um resortzinho de beira de estrada: é refúgio de celebridades, de empresários discretos e, mais recentemente, de suas excelências togadas. Diária alta, heliponto, marina, jacuzzi aquecida e muito, muito silêncio, sobretudo silêncio institucional. Em resumo: Tayayá Resort, onde a excelência se hospeda.

Suíte standard não combina com a clientela. Lá, o cardápio leva o selo da palavra mágica do Brasil contemporâneo: master. Suíte master, experiência master, privilégio master. O país não conseguiu ser potência mundial, mas se esforça para ser, pelo menos, master em escândalo de luxo.

 E, de preferência, com vista para a represa.

É nesse cenário que entra em cena “sua excelência, o ministro”. No Brasil, a palavra excelência tem dupla cidadania: designa o topo da hierarquia do Estado e, ao mesmo tempo, o padrão máximo de qualidade de um serviço. 

Quando uma excelência se hospeda num lugar que se vende como excelência, temos a fusão perfeita entre Casa-Grande e “resort & spa”. Gilberto Freyre talvez se divertisse e se horrorizasse ao ver como a velha distância entre Casa-Grande e Senzala sobrevive, agora, em versão decorada com linho cru, granito importado e discurso ambiental.

Roberto DaMatta explicou como poucos nossa obsessão pela pergunta: “Você sabe com quem está falando?” Tayayá parece ter sido projetado para que ninguém precise sequer formulá-la. 

A arquitetura responde por si: heliponto exclusivo, acesso reservado, funcionários treinados para reconhecer sobrenomes antes mesmo de ver documentos. A excelência não enfrenta fila; a fila é que aprende a contornar a excelência.

E excelência, no Brasil, nunca viaja sozinha. Vem cercada de uma pequena corte: esposa, filhos, parentes, agregados, amigos de infância, todos promovidos automaticamente à condição de “quase excelência”. 

É a velha sociologia doméstica da casa-grande: se o patriarca é intocável, seus próximos desfrutam de uma espécie de extensão hereditária do respeito. A Constituição garante direitos a todos; o sobrenome garante privilégios a alguns.

É justamente fora do eixo óbvio do poder que a cena se revela com mais nitidez. 

O Tayayá não fica em Brasília, nem no litoral badalado. Fica ali, discreto, no interior, vendido como refúgio ecológico e silêncio absoluto. Silêncio de carros e buzinas, claro, mas também de perguntas incômodas, olhares curiosos e ruídos democráticos. 

É nesse tipo de isolamento que homens do poder gostam de se reunir: longe da praça pública, perto o suficiente uns dos outros e suficientemente afastados de qualquer constrangimento institucional.

Nesse silêncio cuidadosamente administrado, “Tayayá”, palavra de origem indígena, batiza um resort de luxo com marina, gastronomia sofisticada e cotas imobiliárias vendidas como experiência. 

A receita é conhecida: toma-se um nome ancestral, mergulha-se numa infinity pool, envolve-se tudo em granito importado e vende-se a ideia de “natureza exclusiva”.

Exclusiva para quem? Para quem, em tese, deveria zelar pela Constituição enquanto desfruta, em off, de uma casa erguida em área ambiental ainda à espera de licença definitiva. Para sua excelência e para a pequena nobreza adjacente: filhos, agregados, sócios, todos hospedados sob o mesmo guarda-sol jurídico.

É nesse ponto que o enredo deixa de ser metáfora e ganha contornos bem concretos. O ministro que relata o inquérito de um banco é o mesmo que circula com desenvoltura num resort conectado a fundos e personagens que orbitam o sistema financeiro, operações nebulosas e relações pouco republicanas.

 Sua excelência julga; as excelências menores usufruem. É o velho “conflito de interesses”, expressão elegante para dizer que a porta giratória entre toga e negócios continua rodando sem pudor.

Parece roteiro ruim de série nacional, mas é só o Brasil em estado bruto. Se fosse ficção, o crítico reclamaria do exagero. Como é realidade, chamamos de “normalidade institucional”.

Do lado de fora desse Brasil climatizado, o cidadão comum descobre, pela televisão ou pelo feed de rede social, que existe um lugar onde o serviço prioriza sempre o proprietário, nunca o hóspede. A anedota é perfeita: num país em que o dono manda até na lei, por que não mandaria também na fila do café da manhã?

O hóspede reclama, mas volta. O eleitor reclama, mas vota. O Brasil reclama, mas continua fazendo check-in no mesmo pesadelo decorado de juta, linho cru e selo verde de prateleira.

No fim das contas, a tal excelência é apenas a versão contemporânea da velha Casa-Grande descrita por Freyre: um espaço elevado, protegido, onde uma minoria circula à vontade enquanto a maioria observa de longe, da senzala atualizada em ônibus lotado, turno extra e fila do SUS. Mudam os revestimentos, entra a jacuzzi, sai a chibata, mas a relação entre quem manda e quem obedece continua espantosamente parecida.

“Brasil, mostra tua cara”, pediu um dia o músico Cazuza. O país atendeu, não em ato cívico na praça, mas em selfie de fim de tarde na varanda de Tayayá: taça na mão, helicóptero ao fundo e a legenda imaginária, porém verossímil. 

Por fim, bastaria repetir o slogan não oficial desta história: Tayayá Resort, onde a excelência se hospeda.

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