ru24.pro
World News
Январь
2026
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Gente que pensa que parque é quintal sem dono

0

Paulo Henrique é servidor da Amma. Ele é desses que trabalham no território invisível aos olhos da sociedade. Atua na área operacional, faz parte da galera que pega no pesado nas atividades do órgão. Enfim integra o time que joga limpo com os parques de Goiânia, os quais são uma preciosa riqueza ambiental que a cidade possui. Infelizmente muitas pessoas não sabem disso.

O que não falta é gente que não dá a mínima importância para o tesouro precioso que são os nossos parques. Há quem os use apenas para a prática de exercícios físicos, mas sem enxergar a biodiversidade vegetal e animal deles e assim descansar os olhos na contemplação da infinidade de seres que habitam esses espaços. Existem até as pessoas que levam seus doguinhos para um passeio nos parques bem como lhes permitir fazer o dois, mas sem remover a titica do lugar em que os animais a deixaram cair. Seus peludinhos são os únicos animais que seus olhos conseguem ver como animais.

Paulo e eu trocamos algumas ideias nesta quarta-feira, 14, enquanto ele recolhia os resíduos das lixeiras do Parque Leolídio Di Ramos Caiado. Em meio a seu gesto mecânico na coleta do lixo, quase automático, veio o seu desabafo com a falta de civilidade de alguns frequentadores do parque. Falta de civilidade, sabe bem você, altaneiro leitor, é algo perigoso. Muitas vezes ela ocorre numa atitude aparentemente pequena, mas que, no seu acúmulo, acaba ocasionando problemas ambientais de larga escala.

A falta de civilidade, na verdade, tanto pode ocorrer no que se faz ou no que se deixa de fazer, e esses dois aspectos abrangem uma gama ampla de ações. Deixar de jogar um coco na lixeira é um desleixo com as regras comuns que fazem parte do bom convívio de uma comunidade. Fazer o mesmo com fezes de cachorro é outra coisa abominável e frequente nos parques. Ou melhor, nas ruas de Goiânia de modo geral. Há determinados prédios que até põem placa para que os donos recolham a titica do seu doguinho.

Paulo Henrique falou dos que bebem água de coco e não têm a decência de levar o coco a uma lixeira, dos que abrem uma garrafa de água mineral, ou um suco, ou um refrigerante, e fazem o mesmo. Me contou que, até dentro do lago do parque, são jogados cocos e outros resíduos. Esse pessoal passa a impressão de que vê o parque como um quintal sem dono ou uma espécie de casa da mãe Joana. Que fique bem claro que Paulo Henrique não foge à tarefa que lhe compete. É um cumpridor de tarefa.

Paulo Henrique é servidor da Amma, é desses que trabalham no território invisível aos olhos da sociedade
| Foto: Sinésio Dioliveira

Como nasci primeiro do que pé-de-moleque, fui ao Mercado Central, na Rua 3, Centro, comprar a iguaria, que julgo mais gostosa que a famosa ambrosia, conhecida como manjar dos deuses do Olimpo. A conversa que tive com Paulo Henrique me veio à mente antes de eu entrar no prédio do mercado. Parei diante de um vaso enorme. Dentro dele, uma pata-de-elefante com mais de dois metros, planta cujo nome vem de ela ter a sua base larga e rugosa como a pata de um elefante. Isso foi uma bofetada nos meus olhos: o vaso estava repleto de tocos de cigarro. Cena explícita de gente imbecil, cabeça de coité.

Confesso que por um segundo um pensamento nada cristão me endiabrou: me bateu uma vontade de enfiar as pontas acesas dos cigarros nu das pessoas que as jogaram na pata-de-elefante. Não por violência, mas por uma pedagogia bruta diante de uma bizarrice profunda de usar uma planta viva como cinzeiro. Esse tipo de estupidez é muito comum. Os jardins públicos conhecem na pele essa estupidez.

O mundo anda doente. Drummond está certo: estamos perdendo o mundo enquanto o soletramos nas páginas manchadas de sangue dos jornais. A incivilidade é uma epidemia muda espalhada por todos os cantos; ela não pede vacina, pois há muitos que juram, de peito estufado, que já nasceram imunizados e estão dando a sua parcela de contribuição para o nosso belo quadro social indo ao jardim zoológico dar pipocas aos macacos nos domingos recheados de frango assado com Coca-Cola.

Falta-nos o básico: perceber que espaço público não é a casa da mãe Joana, mas um espaço coletivo que exige um comportamento civilizado no seu uso. Cada lixo atirado onde não devia é um recado mal-educado sobre nós. É uma confissão escancarada, dessas que revelam quem somos e assim expõem, sem cerimônia, o que fomos deixando pelo caminho. O mesmo se pode dizer sobre titica de cachorro deixada no mesmo lugar que o doguinho a deixou cair.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

O post Gente que pensa que parque é quintal sem dono apareceu primeiro em Jornal Opção.