Confira as primeiras traduções em português do poeta russo Nicolai Glaskov
Astier Basílio
Na certa, você já ouviu falar em “samizdat”. A prática remonta desde os tempos da Rússia imperial, mas esse nome foi criado na época soviética. Seu inventor foi o poeta Nicolai Glaskov (1919-1979). A palavra é uma abreviatura dos dizeres postos em seus livrinhos artesanais: “Eu mesmo me edito” — em russo “samsyebiaizdat”, que acabou se reduzindo para a forma que conhecemos.
Na época da universidade, Glaskov fundou com um amigo o movimento “Nebyvalism”, que se reivindicava herdeiro do futurismo. Entre os admiradores de sua poesia estava Lili Brik, musa do poeta Maiakovski.
O poeta também trabalhou no cinema. Glaskov atuou como figurante em “Aleksandr Nevsky” (1938), de Sergei Eisenstein, além de pequenos papéis. Sua grande atuação foi interpretando o homem voador no primeiro episódio de “Andrei Rublev” (1966), de Andrei Tarkovski.
Para ser editado oficialmente, Glaskov passou, deliberadamente, a escrever poemas que agradassem ao regime. Seu primeiro livro foi publicado em 1957. Ao todo foram 13 obras lançadas em vida.
Nossas traduções são as primeiras em língua portuguesa.
Astier Basílio, escritor, poeta, crítico literário e tradutor, é colaborador do Jornal Opção.
2 traduções de Nicolai Glaskov
(Traduções de Astier Basílio)
1
Corvo
Negro corvo, negro diabo,
Misticismo tu ministras
Voaste no mármore alvo
Meia noite, hora sinistra.
Eu fiquei lhe perguntando:
“A era vindoura traz
Para mim fortuna? Quando?”
Ele respondeu: jamais!
Eu disse: “o tesouro falso
Leva meus anos pra trás.
Por amado de alguém passo?”
Ele respondeu: jamais!
Disse: em desgraças frequentes
Sou um infeliz contumaz.
Mas meus amigos, vão ser diferentes?
Ele respondeu: jamais!
Toda pergunta possível
Que com um “sim” ou um “não” se faz
Deu-me o vidente terrível
Um desolador JAMAIS!…
Perguntei: quantos estados
Existem no Chile e quais?
Ele respondeu: “Jamais!”
E assim foi desmascarado!
(1938)
2
Gênio e bogatir¹ toda vida eu quis ser isso,
Verso inigualável de mim se externa
Sem barril de Diógenes, um diogeníssimo:
Achei a mim mesmo sem qualquer lanterna.
Sei: as almas de todos estão com feridas,
O vinho está faltando, tem pão cada vez menos.
Reneguei até mesmo falhas cometidas,
Pois é assim o tempo que agora nós vivemos.
Eu não devo nada, disso estou sabendo.
Poemas? Nos poemas só palavra havia.
Mas se eu fosse o pincel de um artista estupendo:
Cupom de comida isso eu pintaria
Debaixo da mesinha vejo o mundo agora,
Século vinte, fora de série, insano.
Quanto mais interessante pra quem estuda história
mas triste será para os contemporâneos
(Anos 1940)
¹ Bogatir: uma espécie de guerreiro medieval eslavo.
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